Numa Gota de Chuva

Sob a chuva que cai do céu noturno, fecho os olhos em busca de um instante – nada mais – de plenitude em meio à multidão e sinto
o bater ritmado das gotas de estrelas cadentes de universos de tardígrados cósmicos de poeira seminal-criativa na ponta do dedo de um Deus que sonha com cavalos líricos da harmonia primaveril da primeira semana,
o frescor outonal da noite, do vento, da água num beijo úmido, daqueles que deixam marcas na pele, maternal, de um perdão-compreensão da cabeça deitada no colo piedoso, tranquilo, de sublimação da fúria do moedor de entranhas do maquinário sedento,
o choque termodinâmico da engrenagem, da peça de xadrez, do código de barras, quer cyber-diesel-steam com horror e inércia demais no lugar do punk, com a música cadenciada do fluxo hiperdionisíaco das estações, escansões, maturações, a grandiosidade de cálculos em exaflops, a liberdade de cores e sabores,
o toque panteísta das pétalas de um lírio com sua suavidade-inspiração da chave de conexão com um tudo grandioso, com sua completude-aceitação de um ser quebrado que é, ainda assim contra todas as debochadas possibilidades, com sua epifania-destruição dos rancores intensos rumo a uma ultraconcentração para um orgasmo beat,
o quebrar da sincronia fingida entre a pressa e as preces e as pernas e as prenhas ideias porque não há sentido, apenas revolta e revolta, para quem chega atrasado por ter perdido muito tempo se perguntando se chegaria atrasado,
o calar das conversas vazias sobre cursos, trabalhos, esperanças, dos passos agitados dos saltos, sapatos, chinelos contra o chão de imobilidade, do silêncio nas bocas apertadas de meninas e meninos que beijam com paixão de menos e falam merda com paixão demais,
o aroma perdido de suores e perfumes de fim de dia, de fim do mundo, de fim da vida porque a chegada da noite leva todo o ânimo consigo, leva todos os sorrisos, leva toda paciência, que parece florir uma vez mais sob a amenidade de hidrogênio do cheiro de terra molhada,
o sabor indefinível de provar a natureza diluída, o universo contido na gota que já foi um rio, que já foi um mar, que já foi uma lágrima, que já foi o ar, que já foi suor, que já foi gozar, que já foi orvalho, que já foi uma planta, que já foi um cavalo num sonho divino na ponta da minha língua,
mas apenas uma fração de um segundo, na qual o tudo se dilui num nada que também é tudo, antes que meus pés continuem seu caminho solitário e tristonho de volta para casa, tão longo que a poesia se acaba em esquecimento.

 

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De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas a que chamamos “o mundo”?

E com um estrondo seco, o pássaro desaba sobre o telhado, ainda atordoado e confuso quanto ao que aconteceu. Na janela de vidro escuro, mal se vê uma marca para recontar a história.
A criatura tenta se mover para ganhar os céus de novo e, no mesmo instante, é tomada por agitação e desconforto. Arrasta-se e debate-se contra as telhas em vão até que para e se encolhe para tentar se preservar.
Mãos grandes e quentes puxam seu corpo com cuidado. Aninhada entre os dedos e a palma, a rolinha é observada por olhares piedosos. Nenhuma urgência de luta ou fuga a preenche e, ainda que tentasse, nenhuma reação seria possível, como seu pescoço mole e imóvel indicava. Para além das débeis piscadelas e da rítmica respiração, parecia morta.
“O que há para mim?”, questionavam as pequenas e escuras íris. A pergunta ecoava sem som para o céu e para o humano. Nuvens brancas e plácidas singravam o azul na maresia dos ventos distantes, os mesmos que carregaram as asas e que as levaram à brutal colisão.
As penas castanhas se recolhiam junto a sua forma atravessada pela imobilidade e pela resignação perene. De tão encolhida, parecia quase serena.
Talvez pudesse se esconder e se resguardar até que suas partes voltassem a funcionar. Com cuidados piedosos e cautelosos, poderia se manter viva por mais uns dias. Perderia sua liberdade por um longo tempo, olharia o céu e os sopros argênteos sem poder segui-los e trocaria seu mundo sem limites por chão e paredes… mas sobreviveria.
E não muito além. Mesmo com repouso e carinho, nada garantiria que um dia o pássaro voltaria a se erguer e se perder pela paisagem.
Talvez fosse melhor a morte piedosa e sem dor. Bastaria um movimento rápido e brusco das mesmas mãos que o sustentavam para que o fim chegasse. Viria como um raio, uma alteração tão súbita quanto o choque contra a janela. Seu mundo mudaria pela última vez e sofrimento algum se prolongaria numa espera – talvez desnecessária – pelo incerto. Seria uma dose rápida e final de eutanásia aviária.
Ou talvez a criatura largada à própria sorte num canto qualquer. Nem seria condenada à ilusão da vida e da recuperação nem seria sentenciada à morte. Oculta e enfurnada, esperaria por uma salvação ou por fim. Quem sabe na casualidade piedosa de seus semelhantes, quem sabe nas presas e garras de um gato faminto. Fosse o que fosse, a única certeza seria a absoluta solidão que coloriria o momento.
Em algum lugar, um estrondo súbito e seco. O corpo de um motoqueiro desabou inerte contra o quente asfalto. No caminho, a marca negra de pneu levava a sua forma esquálida e encolhida sob o sol morno e o céu azul. Inconsciente e mirrado, parecia morto.
“O que há para mim?”

 

Aflora

Foi numa tarde azul e vívida enquanto deixava meus pés distraídos me conduzirem pelas ruas de casas neocoloniais e telhados sujos de folhas mortas da estação que encontrei a flor. Passava por um terreno pequeno e vazio, tapetado de grama rasteira, com os olhos a fazerem piruetas nas órbitas e os lábios a assobiarem uma canção descompassada quando, por acaso do destino, minhas pupilas errantes notaram algo singular. No terreno infértil e descuidado, desabrochava uma orquídea de pétalas longas e cor intensa a triunfar sobre as tribulações do crescimento.
Parei, aproximei-me e ajoelhei diante dela, contemplando sua tonalidade impressionante e sua forma curiosa. Havia vitalidade a exalar, mesclada ao aroma adocicado de terra revirada, ar e néctar. Parecia a epítome da vida, o pináculo das criaturas que já passaram sobre o planeta, o exemplar mais belo de seu tipo a jamais ser apreciado por um humano.
Incapaz de resistir à tentação, assumindo uma furtividade culpada, coloquei a mão no solo, curvei-a em concha e me preparei para erguê-la. Curioso, notei que as raízes iam fundo na terra, mas não ousei cavar tanto.
Puxei-a para fora, segurando-a com cuidado pelo pedaço que misturava barro e planta em singular amálgama, e, ébrio de amor, levei-a para casa com pressa.
Apressado, procurei um vaso tão logo cheguei e deixei-a no parapeito da janela da sala enquanto buscava um copo d’água. Retornei e molhei-a com cuidado e carinho, admirando seus traços estonteantes.
Em dado momento, um odor nauseante se infiltrou por minhas narinas e me fez cambalear. Um cheiro apodrecido e obscuro de carne decrépita impregnava o cômodo, minhas roupas e tudo ao redor. Foi com uma exclamação de espanto que notei que o aroma nauseabundo provinha da flor.
Corri para fora de meu lar e refiz meu caminho até o terreno em lívido desespero. O crepúsculo já pintava o céu quando cheguei ao local.
Ajoelhei-me no lugar onde a planta estivera e cavei com os dedos em frenesi, seguindo as imensas raízes. Depois de um tempo de tórrido esforço, minhas unhas roçaram em uma superfície macia e lisa ao toque, dotada de uma forma abobadada.
E com horror, notei que aquilo era bochecha inchada e gorducha de um ser humano.

 

Fogo-fátuo

E no crepúsculo da década, morreu o Amor. Encontrou um passante seu corpo estraçalhado e coagulado, irreconhecível sob a luz escura do limiar, à beira de um valão. Não foi enterrado nem velado; empurraram-no para as águas turvas e talvez tenha chegado ao mar.
Longe dali, um homem caminhava pelas ruas de prédios altos e apodrecia no conforto de seu terno arrumado. Seus movimentos eram cirúrgicos, uma dança de bisturis com a monotonia, a esquivar-se dos transeuntes e vencer as calçadas. Um pé mal tocava o chão e o outro sapato já se erguia para tomar a dianteira. Tudo isso nas sombras cinzentas e arquivadas dos edifícios idênticos.
Adentrou um desses e atravessou o hall, cumprimentando o porteiro com gesto de marionete. Mesmo se ninguém estivesse ali, o ritual seria o mesmo. O elevador o alçou para o escritório pela última vez.
Desceu a máquina seu corpo e seu ânimo, confundindo os interiores e os exteriores num avesso inverso. A realidade de engrenagens e polias se engasgou com sede de lubrificantes amenos e corriqueiros – sem happy hour, sem sorriso, sem gorda carteira – ao sair dos trilhos magnéticos e arrebentar-se como flechas contra os olhos arregalados, perfurando-os com tudo o que sempre nunca tinha visto.
As manchas no espelho eram Guernica bombardeada por Átila o Huno sobre pégasos e hidras. Rachava-se e estilhaçava-se feito as vítreas nuvens celestes com suas lágrimas de cristais de gelo; os cacos nanorrobôs esgarçavam pele e músculo para fincar a densa porrada da percepção.
Demitido. A palavra era um acorde tenebroso com uma desagradável nota suspensa que o arremessava de um mezanino com o impacto de um trem de carga. Sua gravata, feito uma serpente de tentações, se desamarrou e pendeu displicente ao redor da gola alteada do paletó. Os cabelos se bagunçaram com o sopro dos ventos insistentes dos bolsos vazios e a barba cresceu grossa e rente como os circuitos queimados de uma placa-mãe solteira. Surrado pelos duríssimos punhos da feiticeira sobre a pirâmide de grama do formigueiro insone.
Deu um passo adiante e sentiu os membros desconjuntados pela instabilidade dos véus translúcidos da realidade alterada. Tudo era o mesmo, mas nada era igual. Não se surpreenderia se houvesse uma segunda lua de crisálidas e cadáveres a flutuar no céu em fragilidade de bola de sabão.
Deixou o edifício sem olhar para trás nem espalhar migalhas de pão para um dia voltar ou para que pombos famintos devorassem a bruxa da bolsa de valores. Foi e sentiu o mundo pela primeira vez em muito tempo: a humanidade vibrava como o eco perdido de um berro numa cordilheira. Os movimentos eram erráticos e as cores, impressionistas. Flocos de pixels digitalizados sob a névoa fosforescente de linhas e linhas de código. Já não apodrecia.
Por que fora demitido? Não era um bom empregado? Pontual, satisfeito, modestamente eficiente? Uma ode ao capital humano?
Arrastando os pés, passou diante de um café em seu caminho para casa. A vitrina decorada oferecia um refúgio da garoa de mágoas e melancolias dos céus cinzentos. Todas as mesas eram ocupadas por rostos sorridentes ou neomimesis parisienses que sopravam mares fumegantes em fumos distantes. Quis entrar e afogar os olhos numa xícara de autocomiseração, mas lugar não tinha.
Passou por um bar de torres amarelas a ruírem sobre cavernas num desastre microcosmológico. Pouco ou nada reparou, exceto a qualidade espumante dos lábios de sua namorada a se quebrarem contra os macios travesseiros ébrios de um amante. As línguas dançavam um animado forró de contato elétrico e muscular, supernova neurológica de endorfinas. Enquanto olhava, estático como uma meia num tapete, a maré virou tsunami, mãos afoitas buscaram acordes erógenos e despertaram infrassons de uníssono orgástico. Lugar não tinha.
Enjoado, seguiu adiante. Sequer estava com raiva, ficava um dito não redito de conformação em doses homeopáticas de mescalina intravenosa. Era confuso, difuso, distante. Sentia que poderia partir-lhe o crânio com unhadas, mas queria matar a si mesmo numa overdose emocional de um cavalar arrependimento, um arrependimento de si e de ser.
Desde que nascera, todos lhe diziam que era uma boa pessoa. A maldade, os abusos, os ímpetos, tudo se enrolava feito bicho-bola no canto marginal de seu coração, afinal queria ser o que achavam que era. Por que ser vil se todos lhe viam magno príncipe de sucessos e deslumbres? Assim, caía no mito que criavam para si e acreditava mesmo que era bom. A danada da maldade, porém, não ia embora. Nessa versão, a bondade preponderava e mais: essa singularidade tão rara o fazia justo, merecedor e, acima de tudo, alguém que merecia ser amado. Quem poderia culpá-lo por preferir a digníssima biografia ao invés da patética e rastejante autobiografia de um inseto baixo?
Ali estava o que, de fato, merecia.
Como se não bastasse, e como as tragédias sempre vêm em três, eram tempos sombrios de gestos obscenos e homens partidos. A violência era o fio que tecia a miséria imaterial de uma nova ordem do amor ao corpo espancado na sarjeta. O medo se mascarava de ódio no eterno carnaval da ignorância.
Ao som do Hino, três rapazes gritaram de empolgação antes que o primeiro lhe arremessasse uma pedra na nuca. Verde-áureos murros e pontapés atingiram seu corpo, rasgaram suas roupas e o empurraram num berço esplêndido de águas sujas. O sangue e o esgoto se misturavam como gêmeos siameses há muito separados e que retornavam para se unir como imãs. Talvez a mais sucinta metáfora da humanidade. Para fechar com chave de ouro, cuspiram e berraram mais um pouco antes de irem embora numa cacofonia turbulenta das mentes pequenas e silenciosas. Gentil, gentil decerto, mas morta e de órfãos desesperançosos.
Era uma boa pessoa, não? Merecia amor… não?
Como uma resposta a seus lamentos, um corpo arremessado horas antes num valão boiou em sua direção e tocou sua mão com os dedos ensanguentados. Com um sorriso, o homem entrelaçou seus dedos com os da figura e empurrou de leve a margem com o pé. Em ritmo lento, o par se afastou no líquido tão, tão imundo e singrou para longe. E talvez tenha chegado ao mar, mas quem saberia? O mundo é tão tortuoso.
Só se sabe que um dia todo mito deve morrer.

 

Hiato

Não.
Me deixem aqui
quieto que queda
de não ser nada.
Não me levantarei
para ver a luz,
o sórdido sol sádico
contra a imensidão azul
e sem nuvens do céu ultraviolento.

Não,
me deixem encolhido
e enrolado
nas cobertas, submerso na cama,
imóvel e estático
como um morto.

Não escreverei nenhum poema hoje,
nem um conto, muito menos um romance,
minhas sagas sem graça
de cegueira e solidão.
Deixe a lapiseira sobre a cômoda
e as folhas também, deixe
que a poeira seja a tinta
que escreve o que não digo.
E tudo já foi dito
(até mesmo isso já foi dito),
por isso procurem coisa melhor
nos versos de Drummond, Rimbaud, Ginsberg, Cazuza…
ou não, e dá na mesma.

Não escreverei versos de amor
impossível
nem de saudade fantasmagórica.
Calem-se os sonetos, silenciem-se as liras
e cessem as análises literárias.
A hora é de um tenso silêncio.

Não escreverei sobre o Brasil
nem direi qualquer coisa
sobre a tragédia de nossos dias.
Não escreverei sobre políticos
nem militares nem Excelentíssimos Juízes
nem sobre o sangue.
Não quero versos sobre violência hoje,
quero o silêncio.

Não surgirá nem ao menos um poetrix
na ponta dos dedos
feito uma gota de orvalho
na folha caída da manhã escura.
Adiemos os tercetos, os decassílabos,
as linhas e letras tortas.
Por hoje, apenas o calar e
a imobilidade, nada de metáforas.

Não comporei um haicai
nem um jisei nem uma elegia a Whitman.
Isso passa; tranquilidade que
amanhã é outro dia, não é?
A tristeza é corrente
na Via Láctea.

Não, ficarei na cama
e não verei mais olhares
de decepção,
de rejeição,
de nojo e pena.
A escuridão não permitirá.

Não dormirei
nem sonharei,
deixarei o desejo, o descanso
e o divino pra depois.
Ficarei de olhos abertos na penumbra
com o silêncio nos ouvidos
e o olvido nos sopros dos outros,
sem saudade nem ritmo, só vãos.
Nenhuma nota, nenhum movimento,
nenhuma intenção nem pensamento.
Passar o dia longe de tudo,
inclusive de mim,
especialmente de mim.

Não chamem a polícia
nem chamem o hospício,
aceitem o breve hiato
da pausa moderna, da rouquidão,
da escrita desperdiçada
e moribunda.
Os cálices se refazem
e a viva porcelana se espatifa
no medo que outra vez
entre nós caminha.

Não me apontem mitos
nem contradições, não me quebrem
os cristais nem façam revoluções,
nem desapareçam ou morram.
Que as horas se arrastem
de pouco em pouco
numa pétrea imobilidade.

Não quero notícias
nem lembranças
nem projetos.
Na hora escura, nada avança
nem retrocede.
Nada nada: é a velha novidade.
O tempo se torna um número
sem sentido nem rumo
numa parede; sem alarme,
pois nada se perde
em tudo que perdemos.
E ao fim do dia,
não se construam mais
castelos de areia.
E me perdoem a apatia.

Não me chame nem grite,
só… me deixe aqui.
Amanhã voltaremos a escrever,
decepcionar e cair…
mas hoje não.

Carta à fumaça do teu cigarro

A serpente espiralada escapa dos lábios volumosos, tão carnudos e vermelhos quanto uma cereja adocicada, e sobe num instante de glória como o cinza dessintonizado de um melancólico fim de tarde no embalo de cansaço de um novembro. O filtro amarelo entre seus dedos finos e brancos como as vulcânicas ruínas de Pompeia evoca a morte e a infinita ausência de sentido que o universo marcou no DNA, uma assinatura de artista.
Mas essa morte tem um gosto diferente e intragável. Uma escolha, sem dúvida; talvez com um quê de glamour, mas não por menos suicida. Crianças beco-sem-saída que sempre souberam que não chegariam longe e, folclóricas e falseadas, ateiam fogo a pedaços de memórias, de asteroides e de círculos.
O que veio primeiro: o ovo ou a distopia? Cruzar a linha e encontrar os troféus corroídos pela ferrugem é tanta desilusão assim? Num instante, era uma estrela, uma dançarina com pés de luz, uma garça de majestoso voo contra a tempestade de nuvens roxas; depois, era fumaça efêmera, sábados que descem pela descarga, acordes menores mal-feitos de velhos e empoeirados violões que só cantam mundos caducos. Promessas, lembranças, amores… todos diluídos e prensados para servirem de combustível aos delírios apocalípticos e aos blecautes.
As ideias tão velhas e tão infantis naufragam, mas o capitão atormentado e paranoico que se desviou para fugir (do quê, por deus, do quê?) não foi junto e maldiz as culpas outras que não a sua. Tudo que já vem pronto para consumo é tentador, mas são só subprodutos radioativos de um decaimento talvez simbólico.
Não é que esteja incompleta, mas as lacunas entre os dentes amarelados contam uma história triste, um se perder sem fim rumo a Ítaca. A agonia de nunca chegar, o cheiro de pontes queimadas e o silêncio, sempre; de alguma maneira, afasta e aproxima, espelha em espelhos que trazem apenas uns olhares, uns abraços, uns sabores, uns suores de um retrocesso maníaco-depressivo. Só há círculos e todos começam e terminam num mesmo ponto.
As metáforas desgastadas poderiam aparecer de novo e de novo, amantes de fantasmas. A imagem de hoje é, porém, uma flor que brota sinuosa de seus lábios rubros antes de desaparecer em eterna efemeridade. Um chamado breve e infinito que ecoa por Aokigahara, de retornos a quartos crípticos e de martírios prefigurativos da inaptidão a esquecer. Uma lembrança do afogamento em seus cabelos de nuvem, hoje secos. Uma saudade de amar…
Deixa, é tarde… A melancolia já submergiu tudo.

 

Roleta-russa

Os dedos trêmulos giraram a chave na fechadura ainda que os olhos envoltos num véu de lágrimas mal lhe permitissem enxergar com clareza. Abriu a porta com um gesto brusco e entrou em casa, tropeçando até a cozinha.
Desceu o interruptor sem notar o que fazia, puxou a gravata apertada com uma expressão contorcida em agonia e escancarou a porta da geladeira. O ar frio lhe recebeu como lábios molhados de amante para aliviar ao menos parte de suas tensões e incômodos com a singela receptividade. Os dentes cerrados se separaram, a boca se relaxou, a postura enérgica se desfez como um dente-de-leão soprado.
A mão – dotada de instintos de cuidado e autopreservação – se moveu por conta própria e agarrou a superfície gelada. A outra, sua companheira, posicionou o abridor para destampar a antítese da caixa de Pandora: a resposta de todos os problemas no mundo.
Levou o gargalo até o rosto – em êxtase quase ritualístico, em fervor religioso, em compulsão viciada, em orgástica apoteose – e beijou-a, tenro e necessitado. A bebida desceu por sua garganta como o mais puro néctar dos deuses, trouxe-lhe água doce às pálpebras e anjos ao estômago.
Cambaleou até bater com o quadril no tampo de mármore na pia, mas ignorou a dor e prosseguiu porque só o instante importava.
O líquido proporcionava uma ardência dolorida e prazerosa, uma eterna primeira vez. De olhos fechados, aproveitava ao máximo as sensações e a liberdade sem par nas carícias da garrafa que, mesmo fria, preenchia cada parte de seu corpo com um calor confortável e bem-vindo. A momentânea e crescente falta de ar era ignorada: o gás ali era mais puro que qualquer oxigênio.
Ainda assim, descolaram os lábios com sofreguidão. Respirava ofegante, mas mantinha um sorriso. Como um gole das águas claras do rio Lete, a cerveja apagara qualquer memória do porquê de estar ali. Restava uma genuína felicidade com toques de satisfação.
Deu um puxão violento na gola da camisa social e estourou três botões, que saltaram (como miolos depois de um disparo certeiro) como rolhas de champagne, depois de um gemido de protesto das costuras. Só então, com os dedos próximos ao rosto, notou o sangue seco que os manchava.
Bebericou mais uma vez, agora com suavidade, e apertou as pálpebras com força. Quando as reabriu, não havia nada ali.
– Estou atrapalhando alguma coisa? – perguntou uma voz debochada vinda da mesa de jantar.
Um arrepio subiu por sua coluna e eriçou os fios finos na nuca. Estaria delirando ou algo do tipo? Seria um efeito súbito e inesperado, como uma punição automática por suas ações.
Caminhou na direção do som com passos firmes e confiantes, afinal, se estivesse louco mesmo, não haveria porque se esgueirar como um personagem em um filme de terror. Esperava encontrar o cômodo vazio para provar sua instabilidade; contudo, um homem de camisa florida e bermuda larga contra a pele queimada de sol se sentava à mesa com um riso de escárnio a brincar em seus lábios.
– Quem é você? O que está fazendo aqui? – exclamou com um grito esganiçado e coberto de embriaguez.
– Ah, nada disso importa… não acha?
– Verdade – murmurou enquanto dava um gole e puxava uma cadeira para se sentar.
O outro riu e balançou a cabeça, erguendo o copo de uísque em sua mão para um brinde. As superfícies vítreas tintilaram ao se encontrarem e ambos beberam antes de prosseguir a conversa surreal.
Assentiu distraidamente para si mesmo, como se estivesse no meio de uma discussão interna, e bebeu mais um pouco. Secou a boca nas costas da mão e apoiou ambos os cotovelos na mesa, curvando-se para encará-lo mais de perto. Os olhos escuros do visitante inesperado pareciam ter um leve tom de amarelado por trás.
– Não sei se você sabe, mas essa aqui é minha casa e… invasão é crime. Mas não se preocupe porque tenho um jeito rápido de resolver isso – reclinou-se de novo, largando a garrafa sobre o tampo de madeira e bufando de esforço. Depois de se contorcer por algum tempo, conseguiu enfim puxar um revólver prateado e reluzente para fora do cinto. Empurrou o tambor para o lado, conferindo a última bala restante, colocou-o de volta no lugar e girou-o com uma expressão de divertimento no semblante embriagado. – Roleta-russa, que tal? É um jogo bem simples.
“Você só tem que apontar”, murmurou e encostou o cano na têmpora com o dedo no gatilho, “e disparar.”
Um clique soou pela sala de jantar e ele deu um riso leve, estendendo a arma para o outro. Não tinha dúvidas de que aquela seria uma noite animada, mas agora estava muito mais empolgante.
Seu companheiro aceitou a brincadeira e posicionou a ponta metálica entre as sobrancelhas grossas. Sem hesitar, apertou e recebeu um estalido como recompensa.
– Sua vez – disse e devolveu-lhe o objeto.
Esticou a mão para pegá-lo e, de novo, notou os dedos sujos de sangue. Um olhar arregalado em desespero e súplica piscou em sua mente como o flash de uma câmera, trazendo-lhe uma sensação incômoda de desconforto.
Sentiu o peso metálico em sua palma e colocou-o sobre a mesa sem hesitar, buscando os lábios vítreos, gélidos e reconfortantes de sua amada. O líquido desceu por sua garganta (como um chafariz rubro-negro) como mel e suavizou os múltiplos sentimentos que o atravessavam.
Voltou o olhar para seu visitante e deu de ombros:
– Sou um homem apaixonado – justificou. Pegou a pistola, encostou-a em ângulo com o queixo e apertou o gatilho.
Clique.
Passou a arma de volta a ele com uma expiração tensa. Sustentando um olhar tranquilo, posicionou-a no meio da testa e disparou. Um estalido seco e mecânico ecoou pela sala de jantar e, sem demora, repassou-lhe.
Assim que seus dedos tocaram a superfície fria mais uma vez, uma cena se desenrolou como um filme. Uma jovem de joelhos segurava o corpo inerte de uma criança cuja camisa – uma blusa qualquer estampada com algum desenho infantil – estava empapada de sangue, que vertia de um buraco de bala no peito aos fracos e moribundos esguichos. Ela o encarava com os olhos escuros: havia nas pupilas dilatadas toques claros de súplica e desespero, mas também uma ferocidade quase animalesca, como se pudesse atacar a qualquer instante.
Seu executor se via submerso naquela escuridão enquanto lhe apontava o cano metálico – uma ameaça profunda que transcendia o plano físico. Ainda assim ou talvez por isso mesmo, disparou.
– Acho que… chega disso – murmurou para o outro, semicerrando as pálpebras pelo advento de uma súbita dor de cabeça. – Você venceu.
– Não é assim que funciona – retrucou, ainda lhe estendendo o objeto.
– Quem é você?
– O que espera que eu responda? Que eu sou o arauto do dia do julgamento e estou aqui para te levar? Consegue ouvir as trombetas? Hein? – disse com um sorriso largo, sacudindo a arma. – Ou que eu sou a balança da justiça e pesarei seu coração para saber se pode entrar no reino dos mortos sem pecados? Não sou nada nem me importo em ser, tampouco tenho um propósito para estar aqui.
– Você acabou de resumir a existência humana – retrucou com um estalo úmido da língua. – Seja sincero: quem é você?
– Sou a razão de levar esse gargalo à boca. Sou aquilo que o mantém acordado durante a noite. Sou o barulho inexplicável nas profundezas de sua alma e as mentiras que conta a si mesmo para tentar se sentir melhor – fez uma pausa e um barulho com os lábios antes de abri-los em um sorriso largo e desprovido de humor. – Sou seu medo.
Fez uma careta de descrença, mas aceitou a pistola e fechou a mão ao redor de seu cabo. Era frio, estável e transmitia uma sensação de absoluta confiança, como se nunca pudesse (uma para o moleque, uma para a mãe e uma para) errar.
Os sentimentos seguros, porém, se distorceram e se partiram como máscaras de acrílico, revelando temor, fraqueza e insegurança. Na superfície lisa, as marcas de seus dedos ensanguentados (por arrancarem o colar do pescoço frio dela). Um soluço escapou por seus lábios entreabertos em hesitação.
– Faça – encorajou o outro, satisfeito.
– Mas eu tenho me…
Seu medo balançou a cabeça de forma negativa com um sorriso largo e debochado antes de repetir o mesmo comando. Com lágrimas nos olhos (desesperados e desafiadores) e alguma coisa (pérolas) na garganta, encostou o cano metálico da arma à têmpora e apertou o gatilho.

 

Perséfone ou A Teoria das Cordas

A agonia é tamanha que os pensamentos mal se organizam, embaralham-se como peças espalhadas de um quebra-cabeça. A escrita é impossível quando significa dor, ansiedade e uma queimação atormentada que acende cada célula como um palito de fósforo para cauterizar as feridas que não se fecham. Mesmo assim, tento e espero pelo óbvio resultado: fracasso, que não tarda ou falha para intensificar a agonia e mandar-me numa espiral de decadência e desespero.
Mas qual foi o gatilho para a ativação desse ciclo de retroalimentação? Ah, seria bonito e poético se fosse um dos motivos nobres e tradicionais, um dos clássicos tons da arte, um dos saborosos lugares-comuns (ainda que, em algum nível, todo suspiro seja por amor). Contudo, a causa é o desespero fundamental do dasein e, a isso, não se cantam canções. Não há música ou beleza na corda bamba nem no abismo sobre os quais os suicidas se equilibram. Alguns olham o mundo nos olhos e percebem que não há espaço para suas almas deformadas no hedonismo forçoso que rege e move a máquina.
Existe um descompasso entre a existência e a eficiência. Para se encaixar, tolhem-se os ramos, lubrificam-se as juntas e conquista-se um lugar, por mais estranho e inconveniente que seja, na coisa. Morre-se nas mãos do mérito e a humanidade escorre purulenta dos poros apodrecidos e dilatados do cadáver que se move segundo as cordas e acordos a ele presos. Para existir, para se agarrar aos míseros fragmentos do humano, para manter viva a brasa efêmera em meio aos vendavais, tempestades e tornados, a fuga é imprescindível para que o ritmo não lhe faça mal e, algum dia, exigirá que o corpo cansado, desapropriado e desumanizado se jogue para tentar parar as engrenagens e as polias. Futilidade; a esperança é esperar o que nunca vem.
Contudo, sinto-me Perséfone, dividida entre dois mundos e condenada a passar nada além de instantes passageiros em cada um deles. A falsidade desse existir me atormenta porque, diferente da deusa, não aceitei a luz primaveril nem a escuridão invernal, ambas em sua alternância quântica e contrária me causam asco e sofrimento. A ilusão de se atar para fazer um papel nos dois é nociva, um relacionamento extraconjugal atravessado pelas garras da culpa e da traição. Cada escolha, uma perda.
Tudo que faço para ser quem eu sou é ser eu quem finjo que seja meu ser; nada mais que uma inacabável mentira. Uns nisso encontram a conciliação, uma pílula de desagravo, mas, para mim, é somente um ácido que corrói minha essência e deforma minhas feições. Nunca quis usar máscaras nem maquiagem, tampouco essa estúpida fantasia apertada de ser humano quando o verbo é substantivado e o substantivo se esconde envergonhado pela nudez de sua ausência de significado.
Assim, tudo se torna insustentável e se estraçalha diante da entropia tirana de estar (e saber que está) completamente fora do lugar. A agonia, fermentada no vazio e no fingimento, cresce e se refina num sem-fim. Da fértil turbulência, jorram apenas gritos e silêncios do som de uma estrutura que colapsa sobre si. A alma não se anima e, sem vida, nada de vivo dela sai, apertado ao redor do pescoço e natimorto.
E a cada nova tentativa, a cada novo fracasso, a cada mentira contada ao mundo e a si, mais inevitável é a queda. Desvia-se da verdade, desfia-se a corda, faz-se dia da noite desperdiçada. A cada nova manhã, algo se distancia e fica para trás.
Como uma Perséfone que transita entre os mundos sem que pertença a nenhum, não há o que esperar se o tempo traz apenas a transição, nunca a solução, de uma falsa liberdade a outra, sempre pendurada em culpa e expectativa tão, tão vazias. Resta apenas o vácuo e as partículas, tão finas e puras quanto lágrimas, de melancolia.
Tão sem esperança quanto nós que, mesmo borboletas, continuam atados.

Koshi

A tempestade, uma colossal nuvem de chuva, granizo e rajadas que uivavam nos ouvidos, eclipsava o céu como uma mancha de negrume denso e impenetrável. As ondas se erguiam em turbulência e sacudiam a embarcação com violência. Mesmo assim, a maior parte de seus tripulantes dormia um sono tranquilo com a certeza de um trabalho bem feito e a perda do justo temor às forças incomensuráveis da natureza diante das quais o homem era um simples e ínfimo grão de poeira.
Um dos que se mantinham acordados observava com reverência ao sombrio espetáculo que se desenovelava quase exclusivamente para ele. As mãos marcadas pelo tempo sequer se davam ao trabalho de lutar contra o poder titânico, limitando-se a pequenos ajustes no leme para que não fossem engolidos pelo mar.
Até que sentiu a base do pescoço ser tocada por um arrepio desagradável. Meneou a cabeça, franzindo as sobrancelhas grossas em uma linha, e fez o melhor que pôde para dispensar a sensação.
Instantes depois, como uma zombaria a sua fútil negação, viu a silhueta de algo que se movia na agitação marítima. Ou melhor, era como se o oceano se movesse ao seu redor, e não o contrário. Guinou com brusquidão para estibordo a fim de se afastar do que quer que fosse, sentindo uma pedra de gelo queimar suas entranhas por antecipação e temor, correu para fora sem se importar com as gotas pesadas e puxou o binóculo.
Girou o olhar para procurar pelo vulto entre as ondas e encontrou-o com facilidade no lugar de antes, incomodando-se com aquela sensação de imobilidade que lhe passava. Mesmo uma baleia seria carregada pela violência natural, mas aquilo, fosse o que fosse, se mantinha estático e inabalável.
Aproximou-se do arpão, mantendo o objetivo no centro da mira, e disparou. A lança sobrevoou a água antes de, com um choque úmido e audível mesmo diante da fúria estrondosa dos ventos, se fincar com perfeição no alvo.
Um guincho estridente atravessou a noite com a intensidade de uma onda de choque, afastando as nuvens e empurrando as águas. Aquele som hediondo e inumano forçou o homem a se colocar de joelhos e cobrir as orelhas, o que não pareceu ter qualquer efeito para impedir que se infiltrasse até seu cérebro como as garras gélidas de um espectro. Uma explosão luminosa cortou os céus enquanto a lua cheia no alto se rachava em um espetáculo de luzes e estourava, de súbito em pedaços, que caíram como milhares de meteoros e entraram na atmosfera como uma infinidade de estrelas cadentes, queimando o próprio tecido da realidade com seus rastros ígneos.
E esta foi a última coisa que viu antes de ser engolido pela escuridão.
Depois de um longo e exaustivo dia, os acontecimentos (ou talvez, o sonho) da noite anterior foram nublados e quase esquecidos pelas tarefas de praxe. As sensações se desvaneceram, as lembranças foram empurradas para longe e o horror deu lugar à corriqueira indiferença da rotina.
Contudo, o retorno do negrume agiu como um imã e atraiu de volta tudo que estivera em segundo plano. Flashes confusos, peças espalhadas de um quebra-cabeça que não queria montar, piscaram diante de seus olhos com fúria insone, mal lhe permitindo cerrar as pálpebras por um instante sequer e mantendo-lhe friamente imóvel na cama.
Seu desconforto era uma amálgama de sensações. O grito desumano ainda reverberava em seus ouvidos, um eco longínquo e assombrado, mas capaz de lhe arrepiar a pele apesar de tudo. Ali, tinha a desconfortável impressão de que, como insetos, milhares de minúsculas patas pinicavam e perfuravam seu corpo inteiro, intercaladas com mordidas dolorosas que provocavam súbitos tremores. Em sua boca, o gosto amargo e cadavérico de tumbas decrépitas se fazia tão insuportável quanto o crescente odor de peixe morto.
Rompeu a monotonia ociosa e se colocou de pé num salto, como se impelido por algo afora si. Deu-se ao trabalho de calçar apenas as sandálias antes de trovejar pela porta em direção ao litoral.
Sequer reparou na lua rubra e gigantesca que, furiosa, o observava do céu escuro.
Tropeçou e cambaleou rumo à praia com uma crescente urgência a pesar-lhe o peito até se render a uma corrida desajeitada. Venceu as ruas vazias e silenciosas até, enfim, alcançar as areias pálidas da costa.
Encalhado na beira-mar, um enorme vulto jazia. Deveria ter o tamanho de uma baleia, mas estava encolhido como um animal a dormir sob o relento e, além disso, não se parecia com qualquer tipo de rorqual que já tivesse visto. A carcaça tinha uma coloração cinzenta, algo mortiço e opaco, e, ao mesmo tempo, milhares de tons e gradações brilhantes, como luz fracionada. Seus traços pareciam incompletos, uma tela abandonada por seu pintor, e o que havia não encontrava nem mesmo a mais distante correspondência no vocabulário limitado. Um aspecto notável, porém, era que parecia estar se decompondo em ritmo acelerado diante de seus olhos, encolhendo e liberando tórridos miasmas de alguma podridão indizível.
Contudo, algo mais atraiu sua atenção. Ou melhor: a ausência de algo. Não ouvia o onipresente murmúrio das ondas porque o mar estava vítreo e imóvel como a superfície congelada de um lago, uma perfeita e uniforme calmaria até onde a vista alcançava.
Curioso, aproximou-se mais do achado e notou um arpão jogado ao lado da criatura, retorcido e manchado com as cores incompreensíveis de alguma substância viscosa. Um arrepio glacial percorreu sua coluna, do pescoço ao fim das costas, mas não recuou. Daquela distância, pôde observar também que vermes pálidos, diferentes de quaisquer que já vira, rastejavam e se banqueteavam.
Enfim, circundou o corpo e postou-se de costas para o mar. Ajoelhou-se diante da carniça retorcida enquanto lágrimas escorriam de seus olhos, distantes como uma longínqua e estridente gargalhada que rasgou a noite tensa e que, embora não tivesse reconhecido, fosse a sua própria.
O motivo era razoável o bastante para explicar o comportamento. E para explicar também sua ausência de reação quando as larvas pareceram notá-lo e decidir que preferiam uma presa viva.
A partir das carnes frouxas e malformadas, encolhidas em posição fetal, um tubo mole e sinuoso se projetava. Um cordão umbilical.

Bruma

As horas, os minutos, os segundos, todos insetos, com suas minúsculas patinhas de ponteiro de relógio, rastejavam sobre sua pele e a perfuravam em dolorosas agulhadas a cada novo e mínimo movimento. Havia algo de curioso nisso: o gosto suave do tempo como um simplório conceito humano, um mero número numa parede, um joguete de engrenagens que não significava nada diante de toda aquela grandeza esvaziada.
O corpo se jogava praticamente inerte e se afundava como um bloco de concreto na maciez fria demais daquele colchão muito grande para alguém tão sozinho com um arrepio que já era uma rachadura permanente em sua coluna e subia como as raízes de um carvalho por seus ossos porosos e enfraquecidos. Ao mesmo tempo em que se sentia tão pesado, havia uma magreza doentia nas costelas salientes, na barriga com suas ondas surreais e nas maçãs cavadas do rosto empalidecido.
Emoldurados por bolsas roxo-enegrecidas e inchadas como uma fruta podre sob o sol cancerígeno daquela cidade, os olhos se fixavam em um ponto nem um pouco especial daquele teto e seus maléficos sussurros. Toda aquela brancura o incomodava com sua ansiedade elétrica por uma cor, qualquer que fosse, para lhe dar razão. Nas mãos de dedos finos e tortos, quase deformados, nas unhas limpas demais, nas palmas sem calos, o fracasso se manifestava em fitas de risadas sem humor que se repetiam em um loop de dar calafrios com um corte abrupto que não encaixava o início e o final.
Pela janela estreita, cavalos corriam para cada vez mais longe ao longo de uma orla onde um cemitério se erguia das águas com sepulturas, mausoléus e obeliscos quase submersos. Os pedaços apagados e opacos de uma lua estilhaçada se mesclavam à necrópole com sombria perfeição sob a luz moribunda de um sol minúsculo que mal atravessava o ar enegrecido e denso. Da areia cinzenta da praia coberta por um lençol de bruma, erguiam-se as carcaças enferrujadas de chevrolets e cadillacs. No retrovisor torto de um deles, uma sapatilha de ponta se pendurava pela fita encardida.
A cama rangeu em protesto e quebrou o silêncio sepulcral enquanto os músculos esgarçados venciam a imobilidade. Como um dente-de-leão, letras de poeira e lágrimas se espalharam ao serem perturbadas pelo deslocamento de ar de um corpo que já não se aguentava mais. Sabiam-se incapazes de se estruturarem de novo, separadas para nunca mais voltar e lançadas rumo ao infinito e ao acaso.
Esquecimento. A palavra tinha gosto de cereja em seus lábios rachados e secos. Olhou para fora uma última vez, para as metáforas de autopiedade e para as pílulas de vácuo, incoerência e inconsistência que exalara. Uma única ideia, uma mandala de cores inexistentes. É que alguns navios afundam antes mesmo de zarpar.
Nos céus de vidro rachado, nenhum vislumbre de esperança à vista. Por que vagar?
“Amém”, pensou antes que seu peito se abrisse numa elipse rubra de onde o verbo aprisionado e sufocado há tanto escorreu enfim em essência, livre das limitações e das instabilidades. E sem nem ao menos pestanejar, o relógio continuou a andar.