Bem-vindo à gaiola

Acho que mais cedo ou mais tarde todo mundo tem um daqueles dias em que acorda meio furioso, meio amargo, meio triste. A raiva fervilha no estômago, sobe pela garganta e quase escapa em um grito, mas é contida e se manifesta talvez como uma ardência embaçada nos olhos.
Quando o cobertor é afastado com o peso de uma placa de chumbo e, em conjunto, músculos e ossos se movem para erguer o corpo, os grilhões ao redor dos pulsos e dos tornozelos ficam evidentes (ou sempre estiveram?). A cabeça ainda nublada tenta ignorá-los, mas a consciência desesperada dá, por fim, vazão ao ódio matutino.
“Estar preso a rotina” parece, por vezes, uma frase clichê de um programa de saúde ou de um livro de autoajuda, mas a realidade de viver dia após dia da mesma forma é dolorosa e insuportável. Dói de verdade, como ansiedade na boca do estômago.
Em algum momento, a juventude se esvai e o mundo adulto te chama à porta: venha para a corrida de ratos, venha para mediocridade, venha para esta vida deserta, venha para o nosso mundinho escroto no qual sua única escolha será crédito ou débito. A imagem mental mais adequada é o Pennywise no bueiro oferecendo um balão. E quando você o aceita… ah, você flutua, todos nós flutuamos aqui embaixo, e passa a viver a agonia crua de ser adulto.
É um coming of age aterrorizante. Nada se encaixa, sabe? De repente, todos os seus planos são levados para longe (porque eles flutuam, hahahaha) e suas opções caem uma a uma diante do vendaval de merda chamado realidade. A faculdade? Não era como você pensava. O emprego? Não era adequado pra você (ele nem mesmo existe, veja só).
E uma após a outra, as utopias se tornam ruínas velhas de civilizações esquecidas; os sonhos se afogam nas lágrimas pungentes que entalaram no seu peito; a esperança morre. Bem-vindo à gaiola.
Come teu alpiste, bebe tua água, canta tua música chorosa e faça tudo de novo, passarinho. Você tenta forçar as barras, entortá-las ao menos um pouco… mas é fraco demais e fracassa. Teu céu é gradeado e tuas asas atrofiaram. Dói, não é? Ser só mais um encarcerado a agonizar com uma dor profunda e inalcançável.
Às vezes, parece que não foi feito para o mundo, que não foi feito para as tardes abafadas e barulhentas dessa cidade, que não foi feito para existir. E isso dói porque seus pores do sol e suas luas cheias de verão estão além daquelas grades. As barras de ferro são o mundo… ou são você?
Eu sei; dói pra caralho.

Suspiros Azuis

Os pés balançavam suspensos sobre as águas escuras e serenas enquanto o restante do corpo se sentava na beirada de um píer iluminado apenas pela luz pálida e vazia de uma lua minguante, minguada, insossa. O espelho d’água refletia um mundo trêmulo e escuro, um inverso do que já era reverso, de formas instáveis e mutantes como um significado qualquer que se perdera entre o primeiro e o último instante.
As mãos prateadas se ergueram em direção ao céu sem estrelas de fumos melancólicos e sereno de inverno, do tipo que beija cabelos molhados, com as palmas abertas, como se esperassem que o astro sem brilho se entregasse. Baixaram-se de novo, frustradas, e repousaram sobre a madeira carcomida do porto. A insistente destra, porém, se ergueu de novo e encostou o indicador e o médio contra a têmpora, mantendo o polegar erguido em vã e desconjuntada ameaça.
Numa última súplica desesperançada, olhos argênteos fitaram a forma sem graça com cintilações de diamantes de sal. Mas tetos – sejam de quartos frios ou de vidas sem sentido – são sempre indiferentes.

Eu surfava vias de congestionamento quando primeiro a vi.  Anja de tez dourada com as asas recolhidas para na multidão não esbarrar. Havia nuvens claras de pó de safira e jade ao seu redor, mas limitado não pude distinguir se vestes ou divindade. Seus olhos de caleidoscópio se encontraram com os meus de enigmas vazios e esfinges cadavéricas – breve supernova – e seguiram sem demora.
Alvoroçado, continuei meu sistemático isolamento na medida do possível: insistia em olhar de esguelha para tua forma de luz e de rimas ricas. Mesmo ao fim dos movimentos, segui-te com a mente.
Semideusa de aparições milagrosas, encontrei-te de novo em praias presas entre quatro paredes de tempo desperdiçado e filmes que já vimos. Em teus passos de ballet, teu sorriso de raio de sol num dia nublado aqueceu o gelo de um cubo num martini etéreo e astral de abstinência que se desfaz em euforia. Teus lábios distantes, pétalas de rosa que se abrem em afirmações de melodia finíssima.
Persisti e resisti ainda assim, como um teimoso que enfrenta uma tempestade de verão e espera que os raios caiam longe. Contudo, represa cheia estoura em rachaduras tecidas pela própria insistência.
Por isso, como fonte, jorrei sobre ti as cores mais bonitas como humildes oferendas:
sequer chegavam a teus pés. Você pegou uma, sentiu o perfume e abriu-se em um riso de mel.
Contemplei por éons suas feições esculpidas em harmonia e diligência, estupefeito que seus olhos multicoloridos olhassem de volta. Por ti, cultivei flores sob água pura e entreguei cada uma em buquês de esforço indizível e tão próximos da perfeição quanto a imperfeição poderia chegar.
Aos poucos, desci da minha montanha em seu colo com o rosto em seus cabelos e o peito inflamado. Toquei tuas asas suaves, enrolei teus cabelos de caótica ordem e acariciei tua pele aveludada com devota reverência tal qual um profeta diante do deus que proclama. Por alguns instantes – eternos enquanto duraram, fui feliz. Uma concha se partiu e talvez houvesse mesmo uma pérola.
Mostrei a beleza e também o oceano azul marinho dentro de mim, da superfície até as mais abissais profundezas. E acreditei mesmo que, se te dissesse, você ficaria.
Contudo, quando abri os olhos, estava diante do espelho da escuridão e vazio de cada dia, olhando para meu próprio reflexo, nu e isolado em meio à multidão sem rosto. Uma sinfonia de espaços entre notas.
Vozes em minha cabeça para amenizar a solidão. Ideias apaixonantes.
Fracassado e por mim enganado, segui até o lugar mais alto e mais solitário onde poderia inverter o céu e a terra. Olhei para baixo, para a queda infinita de anjos sem asas, cerejas de esquecimento e vazios reconfortantes, porque os fumos de melancolia eram bem-vindos e inebriantes.
E rumo ao infinito.

O polegar desce, o indicador e o médio recuam enquanto a cabeça vai para o lado oposto, porém de olhos tranquilos. O corpo desaba do píer e é recebido pelas águas escuras, que o abraçam.

Despenco no oceano dentro de mim, em sua gélida e compreensível ausência, porque o segredo em cada pausa é que estou sempre sozinho. Nada mais condizente, não? Sem cor, morro afogado em azul-marinho.

De Dentro do Ralo

O olhar cansado estudou o próprio semblante no reflexo do espelho. Um ar mal-cuidado e repelente cercava o rosto de barba por fazer, olheiras escuras e expressão séria e pouco convidativa. Não era surpreendente que recebesse apenas olhares atravessados (e quase sempre cheios de ódio) daqueles que porventura tinham o azar de cruzar seu caminho.
Estava cansado de si. Sua existência excêntrica e solitária naquela cidade grande demais para os apertos de carência em seu coração era um beco sem saída. Sua vida patética em um trabalho que roubava sua alma estava estagnada no ritmo da rotina enlouquecedora de perder sua humanidade em alguma estação do BRT e encontrá-la de novo, apenas para que o ciclo pudesse se repetir no dia seguinte.
Talvez o motivo imediato desse desconforto amargo fosse a contorção de esgar que se deu na face de uma jovem quando seus olhos se encontraram por entre a selva de mãos e braços erguidos na volta para casa. Aceitava e agarrava-se o fato de que havia algo de desagradável em si, mas ainda assim doía.
Cambaleou para longe da pia e recostou-se à parede enquanto se despia. As mãos exaustas operavam de forma quase mecânica.
Deu mais alguns passos pesados e lentos até se colocar sob o chuveiro. Curvou a cabeça enquanto o abria e deixou que a água gelada molhasse seu corpo e lavasse mais um dia para dentro do ralo.
Em algum momento, lágrimas de cansaço e impotência brotaram para se misturar com as gotas que lavavam a pele. Tão passageiras, imperceptíveis e insignificantes quanto ele. Tão silenciosas quanto seus soluços de desespero e seus pedidos de ajuda.
De súbito, o encanamento arrotou uma bolha de ar e trouxe de volta um pouco do que já tinha descido. Franziu a testa e olhou para a proteção branca que fechava o buraco no chão.
Resmungou para si mesmo que essa era a última coisa de que precisava.
Continuou a se ensaboar até que a mesma coisa se repetiu. Dessa vez, o refluxo foi ainda maior e se acumulou aos seus pés.
Suspirou com irritação, fechou o chuveiro e puxou a toalha.
Vestiu uma roupa velha, pegou algumas ferramentas que talvez fossem úteis e voltou para tentar resolver o problema por conta própria. Não era bom em fazer esse tipo de trabalho, mas não tinha dinheiro para chamar alguém.
Abaixou-se e retirou a proteção, olhando para a escuridão úmida. Ao longe, conseguia distinguir alguma coisa vermelha cercada por algo branco. Sentiu um arrepio subir pelo pescoço quando sua mente se perguntou incrédula se aquilo era um olho.
Recuou por um momento e riu desse pensamento ridículo.
Sentou-se no anteparo do box e abriu a caixa, procurando até encontrar um fio metálico e pouco flexível. Pegou-o e se aproximou do buraco para colocá-lo lá dentro.
Assim que iria colocar, uma mão pálida e suja de esgoto com unhas longas e imundas envolveu seu pulso em um toque gélido. Por um instante, viu-se incapaz de esboçar qualquer reação. Até que soltou um grito de desespero: a mão saía do ralo.
Tentou escapar do aperto dos dedos magros que se arqueavam como garras, mas era bem mais forte do que esperava. Tentou de novo, agarrando o próprio antebraço, e, dessa vez, conseguiu. A inércia, porém, o lançou para trás e o fez bater de cabeça na parede, fechando os olhos com o impacto e sentindo tudo girar.
Quando reabriu as pálpebras, a figura nua de uma jovem esquelética e completamente imunda com as substâncias asquerosas e indissociáveis que se agarravam às paredes do encanamento se curvava sobre ele. Tinha a pele tão branca quanto papel, com veias azuladas a se destacarem por seu tom intenso, e os cabelos negros e volumosos cobriam seu rosto por completo. Inclinou a cabeça com lentidão, erguendo o queixo para olhá-lo, e os fios se moveram para mostrar um olho de íris vermelha.

O corpo do homem foi encontrado em seu apartamento com a parte frontal do crânio brutalmente esmagada. Sua face tinha marcas profundas de unhas, e a posição em que fora encontrado – com a cara quase enfiada no ralo do box – também contribuíra para causar um incômodo desagradável nos policiais, intensificado pelos relatos dos vizinhos de terem ouvido gritos.
Mesmo assim, as caixas intocadas de remédios controlados facilitaram a plausibilidade da conclusão final do caso: suicídio.

Crônica quase natalina

Em algum momento entre uma estação e outra, um homem entra desapercebido no meio das poucas, raras pessoas que têm coragem de encarar uma quinta-feira chuvosa. Suspira para si mesmo e começa seu discurso na parte da frente do ônibus.
Eu, sentado atrás e mais preocupado com a umidade desconfortável em meus sapatos depois de se afundarem em alguns centímetros de água suja no dia anterior, nem ouço.
Depois de pedir na primeira metade da besta articulada, vem para a parte de trás e, dessa vez, escuto o que tem a dizer. Uma dose homeopática de história triste: ex-presidiário, faminto depois que o restaurante popular foi fechado pelo prefeito que não deixará saudades, pede algumas moedas, qualquer quantia. Olhos ansiosos, mãos calejadas a segurarem uns poucos centavos, lábios comprimidos na espera.
Silêncio. Nenhuma mão procura por centavos perdidos.
Talvez estivessem todos endurecidos pela realidade diária de dezenas de outros pedidos de esmola, talvez não tivessem trocados disponíveis, talvez não quisessem dar.
O homem fecha em punho a mão com as parcas moedas, engole em seco com olhos tristes e vai embora. Antes, porém, em tom sério, seco e amargurado, profere uma ameaça que reverbera pelos tímpanos e ossos: “feliz Natal pra vocês, tá?”.

J’est un autre

Eu sonhei e, nesse sonho, sentava-me sobre a terra rachada e infértil diante de um abismo tão profundo e escuro que não conseguia ter nenhuma ideia de seu fim. Do lado oposto dessa falha, continuava o mesmo solo árido e sem vida a se estender pelo horizonte em seus tons esquálidos de cinza e marrom.
Peguei uma pedra de um monte piramidal empilhado próximo a mim e arremessei-a com languidez para que cruzasse o vazio, fazendo os dedos transferirem energia para a superfície áspera. Caiu, porém, antes que concluísse a travessia e desapareceu nas trevas infinitas, despencando rumo ao desconhecido, em uma curva displicente.
Coloquei outra em meus dedos e, com mais cuidado, lancei-a. Os músculos retesados, a testa franzida, os lábios comprimidos. O resultado foi o mesmo – se não pior – e assisti-a se afundar no negrume, tal qual a predecessora.
Mudando a abordagem, posicionei uma pequena rocha no elástico de um estilingue e soltei-a. A borracha se afastou de meu indicador e de meu polegar a carregar o projétil. Este, por sua vez, deixou-a com firmeza e talvez até confiança de que seria bem-sucedido. Ainda assim, mergulhou para baixo com o mesmo vigor fracassado de seus companheiros.
Por fim, joguei-me no abismo. E talvez só assim eu tenha alcançado o outro lado.

A Fuga

E esses dias parece que estou sempre fugindo
De alguém, de algo, do próximo compromisso,
Dos olhares que questionam o que faço,
Meu silêncio, o ritmo do meu passo,
A estranheza que nem eu sei de onde veio
E só cresce mais e mais a cada dia.

Dia: a agonia a cada novo amanhecer
De saber que há algo muito errado em você
E que não precisou do Trump pra construir um muro,
Afinal já somos capazes de destruir o futuro
E o fizemos sem receio,
Deixando apenas consciência vazia.

E há vazio nos olhos e no coração
Porque nem a tristeza,
Antes um resquício de certa beleza,
Aguentou minha solidão.

Então, continuo a fugir
Dos olhares e dos julgamentos doídos,
De sóis, bailarinas e satélites caídos
E da verdade.