Bruma

As horas, os minutos, os segundos, todos insetos, com suas minúsculas patinhas de ponteiro de relógio, rastejavam sobre sua pele e a perfuravam em dolorosas agulhadas a cada novo e mínimo movimento. Havia algo de curioso nisso: o gosto suave do tempo como um simplório conceito humano, um mero número numa parede, um joguete de engrenagens que não significava nada diante de toda aquela grandeza esvaziada.
O corpo se jogava praticamente inerte e se afundava como um bloco de concreto na maciez fria demais daquele colchão muito grande para alguém tão sozinho com um arrepio que já era uma rachadura permanente em sua coluna e subia como as raízes de um carvalho por seus ossos porosos e enfraquecidos. Ao mesmo tempo em que se sentia tão pesado, havia uma magreza doentia nas costelas salientes, na barriga com suas ondas surreais e nas maçãs cavadas do rosto empalidecido.
Emoldurados por bolsas roxo-enegrecidas e inchadas como uma fruta podre sob o sol cancerígeno daquela cidade, os olhos se fixavam em um ponto nem um pouco especial daquele teto e seus maléficos sussurros. Toda aquela brancura o incomodava com sua ansiedade elétrica por uma cor, qualquer que fosse, para lhe dar razão. Nas mãos de dedos finos e tortos, quase deformados, nas unhas limpas demais, nas palmas sem calos, o fracasso se manifestava em fitas de risadas sem humor que se repetiam em um loop de dar calafrios com um corte abrupto que não encaixava o início e o final.
Pela janela estreita, cavalos corriam para cada vez mais longe ao longo de uma orla onde um cemitério se erguia das águas com sepulturas, mausoléus e obeliscos quase submersos. Os pedaços apagados e opacos de uma lua estilhaçada se mesclavam à necrópole com sombria perfeição sob a luz moribunda de um sol minúsculo que mal atravessava o ar enegrecido e denso. Da areia cinzenta da praia coberta por um lençol de bruma, erguiam-se as carcaças enferrujadas de chevrolets e cadillacs. No retrovisor torto de um deles, uma sapatilha de ponta se pendurava pela fita encardida.
A cama rangeu em protesto e quebrou o silêncio sepulcral enquanto os músculos esgarçados venciam a imobilidade. Como um dente-de-leão, letras de poeira e lágrimas se espalharam ao serem perturbadas pelo deslocamento de ar de um corpo que já não se aguentava mais. Sabiam-se incapazes de se estruturarem de novo, separadas para nunca mais voltar e lançadas rumo ao infinito e ao acaso.
Esquecimento. A palavra tinha gosto de cereja em seus lábios rachados e secos. Olhou para fora uma última vez, para as metáforas de autopiedade e para as pílulas de vácuo, incoerência e inconsistência que exalara. Uma única ideia, uma mandala de cores inexistentes. É que alguns navios afundam antes mesmo de zarpar.
Nos céus de vidro rachado, nenhum vislumbre de esperança à vista. Por que vagar?
“Amém”, pensou antes que seu peito se abrisse numa elipse rubra de onde o verbo aprisionado e sufocado há tanto escorreu enfim em essência, livre das limitações e das instabilidades. E sem nem ao menos pestanejar, o relógio continuou a andar.

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Sobre olhos de caleidoscópio, de novo

Minha querida Mona Lisa,
Sei que prometi e
sei, melhor que ninguém,
como tentei. Mas
percebi que tentar te esquecer seria
um esforço inútil. Vãs,
as coisas todas,
e te deixar morrer
na memória
seria cruel, sempre
esteve acima das coisas desse mundo.

É só desespero
de dar sentido
ao que não tem
e de lutar
contra nossa cósmica,
infinita e dolorosa
insignificância.

Você poderia dizer que
entendi tudo errado, que
sou muito dramático, que
o tempo

algum dia vai curar…
E talvez,
só talvez,
esteja certa.
Mas não tenho tantos éons
à disposição,
ínfimo humano que sou.
Até o sol eterno
ainda chora as
memórias de sua
pálida lua.

Por vezes, seus lindos
olhos de caleidoscópio
brilham ao longe,
no horizonte do meu olhar perdido,
e teu gosto
de cereja
invade
a minha
bo
ca

então, entenda, que é muito,
muito
difícil te esquecer.

Mesmo em íris outras,
em lábios outros,
em cabelos menos bagunçados que os teus,
falta… algo.
Meu mundo é
monocromático
nessa monomania
de mastigar as
memórias duras e doces
daqueles dias.
Sem cor, olhos de
jade são só
distantes e simples demais.

Nada do que eu digo faz
sentido, mas,
em algum lugar, a gente sabe
que “it’s all about balloons”.

Desculpa, escrevi
sobre você de novo.

Sempre seu.

Mergulho

Com os pés apoiados sobre a beira da nave e as costas eretas, ele se preparou. Esticou os braços, ergueu-os acima da cabeça com os dedos entrelaçados e alongou-se com estalos úmidos dos ossos. Expirou o ar e fechou os olhos para se acalmar, contando lenta e pausadamente até dez.
Inspirou de maneira ampla, expandindo a caixa torácica e sentindo o sabor do vento em suas narinas, ao fim da contagem. Focando-se por completo nisso, soltou o gás carbônico e, com ele, os sons do mundo: abstraiu-se do rugido dos motores, do canto dos pássaros, das vozes altas e embriagadas, dos pequenos e esporádicos ruídos, de tudo que poderia despedaçar aquele estado de espírito.
Repetiu o processo, trazendo o mundo para dentro de si com sua violenta paleta multicolorida de cheiros; dos piores aos mais sublimes, dos familiares aos mais indesejados. E empurrou-os para longe de si com um movimento do diafragma.
Com um novo fôlego, acentuou os desconfortos. O peso das roupas ásperas sobre a pele, a dor incômoda na boca do estômago, o repuxar de zéfiro, a dureza gelada sob as solas descalças, as coceiras minúsculas, o movimento dos cabelos. Seu corpo se levantava contra o fluxo de muitos outros, matérias excludentes e concorrentes.
Uma expiração. Uma última inspiração e uniu os lábios, submerso em si mesmo e além do mundo sensível.
Lançou-se ao inexplorado. Atravessou a superfície e afundou no vazio, que, de imediato, se preencheu de luzes e cores indescritíveis. Os arredores pulsavam em vida e energia essencial que se transfigurava e se transmutava a cada segundo em supernovas de criação que eram engolidas por buracos de destruição que jorravam quasares da mais pura recriação. Macrofagócitos miméticos que cantavam sinfonias de pedras, notas e rimas preciosas e iluminavam os confins mais escuros com auroras de divindade extasiada. Círculos em torno de círculos que se entrelaçavam e circulavam-se a si mesmos, tecendo correntes de chuva na lama primordial.
O mergulhador de ego liquefeito se aprofundou ainda mais rumo ao desconhecido e seus mistérios. A sua frente, universos inteiros desabrochavam por entre fendas e imperfeições no asfalto seco. E isso era alimento para sua alma.

Bem-vindo à gaiola

Acho que mais cedo ou mais tarde todo mundo tem um daqueles dias em que acorda meio furioso, meio amargo, meio triste. A raiva fervilha no estômago, sobe pela garganta e quase escapa em um grito, mas é contida e se manifesta talvez como uma ardência embaçada nos olhos.
Quando o cobertor é afastado com o peso de uma placa de chumbo e, em conjunto, músculos e ossos se movem para erguer o corpo, os grilhões ao redor dos pulsos e dos tornozelos ficam evidentes (ou sempre estiveram?). A cabeça ainda nublada tenta ignorá-los, mas a consciência desesperada dá, por fim, vazão ao ódio matutino.
“Estar preso a rotina” parece, por vezes, uma frase clichê de um programa de saúde ou de um livro de autoajuda, mas a realidade de viver dia após dia da mesma forma é dolorosa e insuportável. Dói de verdade, como ansiedade na boca do estômago.
Em algum momento, a juventude se esvai e o mundo adulto te chama à porta: venha para a corrida de ratos, venha para mediocridade, venha para esta vida deserta, venha para o nosso mundinho escroto no qual sua única escolha será crédito ou débito. A imagem mental mais adequada é o Pennywise no bueiro oferecendo um balão. E quando você o aceita… ah, você flutua, todos nós flutuamos aqui embaixo, e passa a viver a agonia crua de ser adulto.
É um coming of age aterrorizante. Nada se encaixa, sabe? De repente, todos os seus planos são levados para longe (porque eles flutuam, hahahaha) e suas opções caem uma a uma diante do vendaval de merda chamado realidade. A faculdade? Não era como você pensava. O emprego? Não era adequado pra você (ele nem mesmo existe, veja só).
E uma após a outra, as utopias se tornam ruínas velhas de civilizações esquecidas; os sonhos se afogam nas lágrimas pungentes que entalaram no seu peito; a esperança morre. Bem-vindo à gaiola.
Come teu alpiste, bebe tua água, canta tua música chorosa e faça tudo de novo, passarinho. Você tenta forçar as barras, entortá-las ao menos um pouco… mas é fraco demais e fracassa. Teu céu é gradeado e tuas asas atrofiaram. Dói, não é? Ser só mais um encarcerado a agonizar com uma dor profunda e inalcançável.
Às vezes, parece que não foi feito para o mundo, que não foi feito para as tardes abafadas e barulhentas dessa cidade, que não foi feito para existir. E isso dói porque seus pores do sol e suas luas cheias de verão estão além daquelas grades. As barras de ferro são o mundo… ou são você?
Eu sei; dói pra caralho.

Suspiros Azuis

Os pés balançavam suspensos sobre as águas escuras e serenas enquanto o restante do corpo se sentava na beirada de um píer iluminado apenas pela luz pálida e vazia de uma lua minguante, minguada, insossa. O espelho d’água refletia um mundo trêmulo e escuro, um inverso do que já era reverso, de formas instáveis e mutantes como um significado qualquer que se perdera entre o primeiro e o último instante.
As mãos prateadas se ergueram em direção ao céu sem estrelas de fumos melancólicos e sereno de inverno, do tipo que beija cabelos molhados, com as palmas abertas, como se esperassem que o astro sem brilho se entregasse. Baixaram-se de novo, frustradas, e repousaram sobre a madeira carcomida do porto. A insistente destra, porém, se ergueu de novo e encostou o indicador e o médio contra a têmpora, mantendo o polegar erguido em vã e desconjuntada ameaça.
Numa última súplica desesperançada, olhos argênteos fitaram a forma sem graça com cintilações de diamantes de sal. Mas tetos – sejam de quartos frios ou de vidas sem sentido – são sempre indiferentes.

Eu surfava vias de congestionamento quando primeiro a vi.  Anja de tez dourada com as asas recolhidas para na multidão não esbarrar. Havia nuvens claras de pó de safira e jade ao seu redor, mas limitado não pude distinguir se vestes ou divindade. Seus olhos de caleidoscópio se encontraram com os meus de enigmas vazios e esfinges cadavéricas – breve supernova – e seguiram sem demora.
Alvoroçado, continuei meu sistemático isolamento na medida do possível: insistia em olhar de esguelha para tua forma de luz e de rimas ricas. Mesmo ao fim dos movimentos, segui-te com a mente.
Semideusa de aparições milagrosas, encontrei-te de novo em praias presas entre quatro paredes de tempo desperdiçado e filmes que já vimos. Em teus passos de ballet, teu sorriso de raio de sol num dia nublado aqueceu o gelo de um cubo num martini etéreo e astral de abstinência que se desfaz em euforia. Teus lábios distantes, pétalas de rosa que se abrem em afirmações de melodia finíssima.
Persisti e resisti ainda assim, como um teimoso que enfrenta uma tempestade de verão e espera que os raios caiam longe. Contudo, represa cheia estoura em rachaduras tecidas pela própria insistência.
Por isso, como fonte, jorrei sobre ti as cores mais bonitas como humildes oferendas:
sequer chegavam a teus pés. Você pegou uma, sentiu o perfume e abriu-se em um riso de mel.
Contemplei por éons suas feições esculpidas em harmonia e diligência, estupefeito que seus olhos multicoloridos olhassem de volta. Por ti, cultivei flores sob água pura e entreguei cada uma em buquês de esforço indizível e tão próximos da perfeição quanto a imperfeição poderia chegar.
Aos poucos, desci da minha montanha em seu colo com o rosto em seus cabelos e o peito inflamado. Toquei tuas asas suaves, enrolei teus cabelos de caótica ordem e acariciei tua pele aveludada com devota reverência tal qual um profeta diante do deus que proclama. Por alguns instantes – eternos enquanto duraram, fui feliz. Uma concha se partiu e talvez houvesse mesmo uma pérola.
Mostrei a beleza e também o oceano azul marinho dentro de mim, da superfície até as mais abissais profundezas. E acreditei mesmo que, se te dissesse, você ficaria.
Contudo, quando abri os olhos, estava diante do espelho da escuridão e vazio de cada dia, olhando para meu próprio reflexo, nu e isolado em meio à multidão sem rosto. Uma sinfonia de espaços entre notas.
Vozes em minha cabeça para amenizar a solidão. Ideias apaixonantes.
Fracassado e por mim enganado, segui até o lugar mais alto e mais solitário onde poderia inverter o céu e a terra. Olhei para baixo, para a queda infinita de anjos sem asas, cerejas de esquecimento e vazios reconfortantes, porque os fumos de melancolia eram bem-vindos e inebriantes.
E rumo ao infinito.

O polegar desce, o indicador e o médio recuam enquanto a cabeça vai para o lado oposto, porém de olhos tranquilos. O corpo desaba do píer e é recebido pelas águas escuras, que o abraçam.

Despenco no oceano dentro de mim, em sua gélida e compreensível ausência, porque o segredo em cada pausa é que estou sempre sozinho. Nada mais condizente, não? Sem cor, morro afogado em azul-marinho.

De Dentro do Ralo

O olhar cansado estudou o próprio semblante no reflexo do espelho. Um ar mal-cuidado e repelente cercava o rosto de barba por fazer, olheiras escuras e expressão séria e pouco convidativa. Não era surpreendente que recebesse apenas olhares atravessados (e quase sempre cheios de ódio) daqueles que porventura tinham o azar de cruzar seu caminho.
Estava cansado de si. Sua existência excêntrica e solitária naquela cidade grande demais para os apertos de carência em seu coração era um beco sem saída. Sua vida patética em um trabalho que roubava sua alma estava estagnada no ritmo da rotina enlouquecedora de perder sua humanidade em alguma estação do BRT e encontrá-la de novo, apenas para que o ciclo pudesse se repetir no dia seguinte.
Talvez o motivo imediato desse desconforto amargo fosse a contorção de esgar que se deu na face de uma jovem quando seus olhos se encontraram por entre a selva de mãos e braços erguidos na volta para casa. Aceitava e agarrava-se o fato de que havia algo de desagradável em si, mas ainda assim doía.
Cambaleou para longe da pia e recostou-se à parede enquanto se despia. As mãos exaustas operavam de forma quase mecânica.
Deu mais alguns passos pesados e lentos até se colocar sob o chuveiro. Curvou a cabeça enquanto o abria e deixou que a água gelada molhasse seu corpo e lavasse mais um dia para dentro do ralo.
Em algum momento, lágrimas de cansaço e impotência brotaram para se misturar com as gotas que lavavam a pele. Tão passageiras, imperceptíveis e insignificantes quanto ele. Tão silenciosas quanto seus soluços de desespero e seus pedidos de ajuda.
De súbito, o encanamento arrotou uma bolha de ar e trouxe de volta um pouco do que já tinha descido. Franziu a testa e olhou para a proteção branca que fechava o buraco no chão.
Resmungou para si mesmo que essa era a última coisa de que precisava.
Continuou a se ensaboar até que a mesma coisa se repetiu. Dessa vez, o refluxo foi ainda maior e se acumulou aos seus pés.
Suspirou com irritação, fechou o chuveiro e puxou a toalha.
Vestiu uma roupa velha, pegou algumas ferramentas que talvez fossem úteis e voltou para tentar resolver o problema por conta própria. Não era bom em fazer esse tipo de trabalho, mas não tinha dinheiro para chamar alguém.
Abaixou-se e retirou a proteção, olhando para a escuridão úmida. Ao longe, conseguia distinguir alguma coisa vermelha cercada por algo branco. Sentiu um arrepio subir pelo pescoço quando sua mente se perguntou incrédula se aquilo era um olho.
Recuou por um momento e riu desse pensamento ridículo.
Sentou-se no anteparo do box e abriu a caixa, procurando até encontrar um fio metálico e pouco flexível. Pegou-o e se aproximou do buraco para colocá-lo lá dentro.
Assim que iria colocar, uma mão pálida e suja de esgoto com unhas longas e imundas envolveu seu pulso em um toque gélido. Por um instante, viu-se incapaz de esboçar qualquer reação. Até que soltou um grito de desespero: a mão saía do ralo.
Tentou escapar do aperto dos dedos magros que se arqueavam como garras, mas era bem mais forte do que esperava. Tentou de novo, agarrando o próprio antebraço, e, dessa vez, conseguiu. A inércia, porém, o lançou para trás e o fez bater de cabeça na parede, fechando os olhos com o impacto e sentindo tudo girar.
Quando reabriu as pálpebras, a figura nua de uma jovem esquelética e completamente imunda com as substâncias asquerosas e indissociáveis que se agarravam às paredes do encanamento se curvava sobre ele. Tinha a pele tão branca quanto papel, com veias azuladas a se destacarem por seu tom intenso, e os cabelos negros e volumosos cobriam seu rosto por completo. Inclinou a cabeça com lentidão, erguendo o queixo para olhá-lo, e os fios se moveram para mostrar um olho de íris vermelha.

O corpo do homem foi encontrado em seu apartamento com a parte frontal do crânio brutalmente esmagada. Sua face tinha marcas profundas de unhas, e a posição em que fora encontrado – com a cara quase enfiada no ralo do box – também contribuíra para causar um incômodo desagradável nos policiais, intensificado pelos relatos dos vizinhos de terem ouvido gritos.
Mesmo assim, as caixas intocadas de remédios controlados facilitaram a plausibilidade da conclusão final do caso: suicídio.

Crônica quase natalina

Em algum momento entre uma estação e outra, um homem entra desapercebido no meio das poucas, raras pessoas que têm coragem de encarar uma quinta-feira chuvosa. Suspira para si mesmo e começa seu discurso na parte da frente do ônibus.
Eu, sentado atrás e mais preocupado com a umidade desconfortável em meus sapatos depois de se afundarem em alguns centímetros de água suja no dia anterior, nem ouço.
Depois de pedir na primeira metade da besta articulada, vem para a parte de trás e, dessa vez, escuto o que tem a dizer. Uma dose homeopática de história triste: ex-presidiário, faminto depois que o restaurante popular foi fechado pelo prefeito que não deixará saudades, pede algumas moedas, qualquer quantia. Olhos ansiosos, mãos calejadas a segurarem uns poucos centavos, lábios comprimidos na espera.
Silêncio. Nenhuma mão procura por centavos perdidos.
Talvez estivessem todos endurecidos pela realidade diária de dezenas de outros pedidos de esmola, talvez não tivessem trocados disponíveis, talvez não quisessem dar.
O homem fecha em punho a mão com as parcas moedas, engole em seco com olhos tristes e vai embora. Antes, porém, em tom sério, seco e amargurado, profere uma ameaça que reverbera pelos tímpanos e ossos: “feliz Natal pra vocês, tá?”.