Hiato

Não.
Me deixem aqui
quieto que queda
de não ser nada.
Não me levantarei
para ver a luz,
o sórdido sol sádico
contra a imensidão azul
e sem nuvens do céu ultraviolento.

Não,
me deixem encolhido
e enrolado
nas cobertas, submerso na cama,
imóvel e estático
como um morto.

Não escreverei nenhum poema hoje,
nem um conto, muito menos um romance,
minhas sagas sem graça
de cegueira e solidão.
Deixe a lapiseira sobre a cômoda
e as folhas também, deixe
que a poeira seja a tinta
que escreve o que não digo.
E tudo já foi dito
(até mesmo isso já foi dito),
por isso procurem coisa melhor
nos versos de Drummond, Rimbaud, Ginsberg, Cazuza…
ou não, e dá na mesma.

Não escreverei versos de amor
impossível
nem de saudade fantasmagórica.
Calem-se os sonetos, silenciem-se as liras
e cessem as análises literárias.
A hora é de um tenso silêncio.

Não escreverei sobre o Brasil
nem direi qualquer coisa
sobre a tragédia de nossos dias.
Não escreverei sobre políticos
nem militares nem Excelentíssimos Juízes
nem sobre o sangue.
Não quero versos sobre violência hoje,
quero o silêncio.

Não surgirá nem ao menos um poetrix
na ponta dos dedos
feito uma gota de orvalho
na folha caída da manhã escura.
Adiemos os tercetos, os decassílabos,
as linhas e letras tortas.
Por hoje, apenas o calar e
a imobilidade, nada de metáforas.

Não comporei um haicai
nem um jisei nem uma elegia a Whitman.
Isso passa; tranquilidade que
amanhã é outro dia, não é?
A tristeza é corrente
na Via Láctea.

Não, ficarei na cama
e não verei mais olhares
de decepção,
de rejeição,
de nojo e pena.
A escuridão não permitirá.

Não dormirei
nem sonharei,
deixarei o desejo, o descanso
e o divino pra depois.
Ficarei de olhos abertos na penumbra
com o silêncio nos ouvidos
e o olvido nos sopros dos outros,
sem saudade nem ritmo, só vãos.
Nenhuma nota, nenhum movimento,
nenhuma intenção nem pensamento.
Passar o dia longe de tudo,
inclusive de mim,
especialmente de mim.

Não chamem a polícia
nem chamem o hospício,
aceitem o breve hiato
da pausa moderna, da rouquidão,
da escrita desperdiçada
e moribunda.
Os cálices se refazem
e a viva porcelana se espatifa
no medo que outra vez
entre nós caminha.

Não me apontem mitos
nem contradições, não me quebrem
os cristais nem façam revoluções,
nem desapareçam ou morram.
Que as horas se arrastem
de pouco em pouco
numa pétrea imobilidade.

Não quero notícias
nem lembranças
nem projetos.
Na hora escura, nada avança
nem retrocede.
Nada nada: é a velha novidade.
O tempo se torna um número
sem sentido nem rumo
numa parede; sem alarme,
pois nada se perde
em tudo que perdemos.
E ao fim do dia,
não se construam mais
castelos de areia.
E me perdoem a apatia.

Não me chame nem grite,
só… me deixe aqui.
Amanhã voltaremos a escrever,
decepcionar e cair…
mas hoje não.

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Carta à fumaça do teu cigarro

A serpente espiralada escapa dos lábios volumosos, tão carnudos e vermelhos quanto uma cereja adocicada, e sobe num instante de glória como o cinza dessintonizado de um melancólico fim de tarde no embalo de cansaço de um novembro. O filtro amarelo entre seus dedos finos e brancos como as vulcânicas ruínas de Pompeia evoca a morte e a infinita ausência de sentido que o universo marcou no DNA, uma assinatura de artista.
Mas essa morte tem um gosto diferente e intragável. Uma escolha, sem dúvida; talvez com um quê de glamour, mas não por menos suicida. Crianças beco-sem-saída que sempre souberam que não chegariam longe e, folclóricas e falseadas, ateiam fogo a pedaços de memórias, de asteroides e de círculos.
O que veio primeiro: o ovo ou a distopia? Cruzar a linha e encontrar os troféus corroídos pela ferrugem é tanta desilusão assim? Num instante, era uma estrela, uma dançarina com pés de luz, uma garça de majestoso voo contra a tempestade de nuvens roxas; depois, era fumaça efêmera, sábados que descem pela descarga, acordes menores mal-feitos de velhos e empoeirados violões que só cantam mundos caducos. Promessas, lembranças, amores… todos diluídos e prensados para servirem de combustível aos delírios apocalípticos e aos blecautes.
As ideias tão velhas e tão infantis naufragam, mas o capitão atormentado e paranoico que se desviou para fugir (do quê, por deus, do quê?) não foi junto e maldiz as culpas outras que não a sua. Tudo que já vem pronto para consumo é tentador, mas são só subprodutos radioativos de um decaimento talvez simbólico.
Não é que esteja incompleta, mas as lacunas entre os dentes amarelados contam uma história triste, um se perder sem fim rumo a Ítaca. A agonia de nunca chegar, o cheiro de pontes queimadas e o silêncio, sempre; de alguma maneira, afasta e aproxima, espelha em espelhos que trazem apenas uns olhares, uns abraços, uns sabores, uns suores de um retrocesso maníaco-depressivo. Só há círculos e todos começam e terminam num mesmo ponto.
As metáforas desgastadas poderiam aparecer de novo e de novo, amantes de fantasmas. A imagem de hoje é, porém, uma flor que brota sinuosa de seus lábios rubros antes de desaparecer em eterna efemeridade. Um chamado breve e infinito que ecoa por Aokigahara, de retornos a quartos crípticos e de martírios prefigurativos da inaptidão a esquecer. Uma lembrança do afogamento em seus cabelos de nuvem, hoje secos. Uma saudade de amar…
Deixa, é tarde… A melancolia já submergiu tudo.

 

Roleta-russa

Os dedos trêmulos giraram a chave na fechadura ainda que os olhos envoltos num véu de lágrimas mal lhe permitissem enxergar com clareza. Abriu a porta com um gesto brusco e entrou em casa, tropeçando até a cozinha.
Desceu o interruptor sem notar o que fazia, puxou a gravata apertada com uma expressão contorcida em agonia e escancarou a porta da geladeira. O ar frio lhe recebeu como lábios molhados de amante para aliviar ao menos parte de suas tensões e incômodos com a singela receptividade. Os dentes cerrados se separaram, a boca se relaxou, a postura enérgica se desfez como um dente-de-leão soprado.
A mão – dotada de instintos de cuidado e autopreservação – se moveu por conta própria e agarrou a superfície gelada. A outra, sua companheira, posicionou o abridor para destampar a antítese da caixa de Pandora: a resposta de todos os problemas no mundo.
Levou o gargalo até o rosto – em êxtase quase ritualístico, em fervor religioso, em compulsão viciada, em orgástica apoteose – e beijou-a, tenro e necessitado. A bebida desceu por sua garganta como o mais puro néctar dos deuses, trouxe-lhe água doce às pálpebras e anjos ao estômago.
Cambaleou até bater com o quadril no tampo de mármore na pia, mas ignorou a dor e prosseguiu porque só o instante importava.
O líquido proporcionava uma ardência dolorida e prazerosa, uma eterna primeira vez. De olhos fechados, aproveitava ao máximo as sensações e a liberdade sem par nas carícias da garrafa que, mesmo fria, preenchia cada parte de seu corpo com um calor confortável e bem-vindo. A momentânea e crescente falta de ar era ignorada: o gás ali era mais puro que qualquer oxigênio.
Ainda assim, descolaram os lábios com sofreguidão. Respirava ofegante, mas mantinha um sorriso. Como um gole das águas claras do rio Lete, a cerveja apagara qualquer memória do porquê de estar ali. Restava uma genuína felicidade com toques de satisfação.
Deu um puxão violento na gola da camisa social e estourou três botões, que saltaram (como miolos depois de um disparo certeiro) como rolhas de champagne, depois de um gemido de protesto das costuras. Só então, com os dedos próximos ao rosto, notou o sangue seco que os manchava.
Bebericou mais uma vez, agora com suavidade, e apertou as pálpebras com força. Quando as reabriu, não havia nada ali.
– Estou atrapalhando alguma coisa? – perguntou uma voz debochada vinda da mesa de jantar.
Um arrepio subiu por sua coluna e eriçou os fios finos na nuca. Estaria delirando ou algo do tipo? Seria um efeito súbito e inesperado, como uma punição automática por suas ações.
Caminhou na direção do som com passos firmes e confiantes, afinal, se estivesse louco mesmo, não haveria porque se esgueirar como um personagem em um filme de terror. Esperava encontrar o cômodo vazio para provar sua instabilidade; contudo, um homem de camisa florida e bermuda larga contra a pele queimada de sol se sentava à mesa com um riso de escárnio a brincar em seus lábios.
– Quem é você? O que está fazendo aqui? – exclamou com um grito esganiçado e coberto de embriaguez.
– Ah, nada disso importa… não acha?
– Verdade – murmurou enquanto dava um gole e puxava uma cadeira para se sentar.
O outro riu e balançou a cabeça, erguendo o copo de uísque em sua mão para um brinde. As superfícies vítreas tintilaram ao se encontrarem e ambos beberam antes de prosseguir a conversa surreal.
Assentiu distraidamente para si mesmo, como se estivesse no meio de uma discussão interna, e bebeu mais um pouco. Secou a boca nas costas da mão e apoiou ambos os cotovelos na mesa, curvando-se para encará-lo mais de perto. Os olhos escuros do visitante inesperado pareciam ter um leve tom de amarelado por trás.
– Não sei se você sabe, mas essa aqui é minha casa e… invasão é crime. Mas não se preocupe porque tenho um jeito rápido de resolver isso – reclinou-se de novo, largando a garrafa sobre o tampo de madeira e bufando de esforço. Depois de se contorcer por algum tempo, conseguiu enfim puxar um revólver prateado e reluzente para fora do cinto. Empurrou o tambor para o lado, conferindo a última bala restante, colocou-o de volta no lugar e girou-o com uma expressão de divertimento no semblante embriagado. – Roleta-russa, que tal? É um jogo bem simples.
“Você só tem que apontar”, murmurou e encostou o cano na têmpora com o dedo no gatilho, “e disparar.”
Um clique soou pela sala de jantar e ele deu um riso leve, estendendo a arma para o outro. Não tinha dúvidas de que aquela seria uma noite animada, mas agora estava muito mais empolgante.
Seu companheiro aceitou a brincadeira e posicionou a ponta metálica entre as sobrancelhas grossas. Sem hesitar, apertou e recebeu um estalido como recompensa.
– Sua vez – disse e devolveu-lhe o objeto.
Esticou a mão para pegá-lo e, de novo, notou os dedos sujos de sangue. Um olhar arregalado em desespero e súplica piscou em sua mente como o flash de uma câmera, trazendo-lhe uma sensação incômoda de desconforto.
Sentiu o peso metálico em sua palma e colocou-o sobre a mesa sem hesitar, buscando os lábios vítreos, gélidos e reconfortantes de sua amada. O líquido desceu por sua garganta (como um chafariz rubro-negro) como mel e suavizou os múltiplos sentimentos que o atravessavam.
Voltou o olhar para seu visitante e deu de ombros:
– Sou um homem apaixonado – justificou. Pegou a pistola, encostou-a em ângulo com o queixo e apertou o gatilho.
Clique.
Passou a arma de volta a ele com uma expiração tensa. Sustentando um olhar tranquilo, posicionou-a no meio da testa e disparou. Um estalido seco e mecânico ecoou pela sala de jantar e, sem demora, repassou-lhe.
Assim que seus dedos tocaram a superfície fria mais uma vez, uma cena se desenrolou como um filme. Uma jovem de joelhos segurava o corpo inerte de uma criança cuja camisa – uma blusa qualquer estampada com algum desenho infantil – estava empapada de sangue, que vertia de um buraco de bala no peito aos fracos e moribundos esguichos. Ela o encarava com os olhos escuros: havia nas pupilas dilatadas toques claros de súplica e desespero, mas também uma ferocidade quase animalesca, como se pudesse atacar a qualquer instante.
Seu executor se via submerso naquela escuridão enquanto lhe apontava o cano metálico – uma ameaça profunda que transcendia o plano físico. Ainda assim ou talvez por isso mesmo, disparou.
– Acho que… chega disso – murmurou para o outro, semicerrando as pálpebras pelo advento de uma súbita dor de cabeça. – Você venceu.
– Não é assim que funciona – retrucou, ainda lhe estendendo o objeto.
– Quem é você?
– O que espera que eu responda? Que eu sou o arauto do dia do julgamento e estou aqui para te levar? Consegue ouvir as trombetas? Hein? – disse com um sorriso largo, sacudindo a arma. – Ou que eu sou a balança da justiça e pesarei seu coração para saber se pode entrar no reino dos mortos sem pecados? Não sou nada nem me importo em ser, tampouco tenho um propósito para estar aqui.
– Você acabou de resumir a existência humana – retrucou com um estalo úmido da língua. – Seja sincero: quem é você?
– Sou a razão de levar esse gargalo à boca. Sou aquilo que o mantém acordado durante a noite. Sou o barulho inexplicável nas profundezas de sua alma e as mentiras que conta a si mesmo para tentar se sentir melhor – fez uma pausa e um barulho com os lábios antes de abri-los em um sorriso largo e desprovido de humor. – Sou seu medo.
Fez uma careta de descrença, mas aceitou a pistola e fechou a mão ao redor de seu cabo. Era frio, estável e transmitia uma sensação de absoluta confiança, como se nunca pudesse (uma para o moleque, uma para a mãe e uma para) errar.
Os sentimentos seguros, porém, se distorceram e se partiram como máscaras de acrílico, revelando temor, fraqueza e insegurança. Na superfície lisa, as marcas de seus dedos ensanguentados (por arrancarem o colar do pescoço frio dela). Um soluço escapou por seus lábios entreabertos em hesitação.
– Faça – encorajou o outro, satisfeito.
– Mas eu tenho me…
Seu medo balançou a cabeça de forma negativa com um sorriso largo e debochado antes de repetir o mesmo comando. Com lágrimas nos olhos (desesperados e desafiadores) e alguma coisa (pérolas) na garganta, encostou o cano metálico da arma à têmpora e apertou o gatilho.

 

Perséfone ou A Teoria das Cordas

A agonia é tamanha que os pensamentos mal se organizam, embaralham-se como peças espalhadas de um quebra-cabeça. A escrita é impossível quando significa dor, ansiedade e uma queimação atormentada que acende cada célula como um palito de fósforo para cauterizar as feridas que não se fecham. Mesmo assim, tento e espero pelo óbvio resultado: fracasso, que não tarda ou falha para intensificar a agonia e mandar-me numa espiral de decadência e desespero.
Mas qual foi o gatilho para a ativação desse ciclo de retroalimentação? Ah, seria bonito e poético se fosse um dos motivos nobres e tradicionais, um dos clássicos tons da arte, um dos saborosos lugares-comuns (ainda que, em algum nível, todo suspiro seja por amor). Contudo, a causa é o desespero fundamental do dasein e, a isso, não se cantam canções. Não há música ou beleza na corda bamba nem no abismo sobre os quais os suicidas se equilibram. Alguns olham o mundo nos olhos e percebem que não há espaço para suas almas deformadas no hedonismo forçoso que rege e move a máquina.
Existe um descompasso entre a existência e a eficiência. Para se encaixar, tolhem-se os ramos, lubrificam-se as juntas e conquista-se um lugar, por mais estranho e inconveniente que seja, na coisa. Morre-se nas mãos do mérito e a humanidade escorre purulenta dos poros apodrecidos e dilatados do cadáver que se move segundo as cordas e acordos a ele presos. Para existir, para se agarrar aos míseros fragmentos do humano, para manter viva a brasa efêmera em meio aos vendavais, tempestades e tornados, a fuga é imprescindível para que o ritmo não lhe faça mal e, algum dia, exigirá que o corpo cansado, desapropriado e desumanizado se jogue para tentar parar as engrenagens e as polias. Futilidade; a esperança é esperar o que nunca vem.
Contudo, sinto-me Perséfone, dividida entre dois mundos e condenada a passar nada além de instantes passageiros em cada um deles. A falsidade desse existir me atormenta porque, diferente da deusa, não aceitei a luz primaveril nem a escuridão invernal, ambas em sua alternância quântica e contrária me causam asco e sofrimento. A ilusão de se atar para fazer um papel nos dois é nociva, um relacionamento extraconjugal atravessado pelas garras da culpa e da traição. Cada escolha, uma perda.
Tudo que faço para ser quem eu sou é ser eu quem finjo que seja meu ser; nada mais que uma inacabável mentira. Uns nisso encontram a conciliação, uma pílula de desagravo, mas, para mim, é somente um ácido que corrói minha essência e deforma minhas feições. Nunca quis usar máscaras nem maquiagem, tampouco essa estúpida fantasia apertada de ser humano quando o verbo é substantivado e o substantivo se esconde envergonhado pela nudez de sua ausência de significado.
Assim, tudo se torna insustentável e se estraçalha diante da entropia tirana de estar (e saber que está) completamente fora do lugar. A agonia, fermentada no vazio e no fingimento, cresce e se refina num sem-fim. Da fértil turbulência, jorram apenas gritos e silêncios do som de uma estrutura que colapsa sobre si. A alma não se anima e, sem vida, nada de vivo dela sai, apertado ao redor do pescoço e natimorto.
E a cada nova tentativa, a cada novo fracasso, a cada mentira contada ao mundo e a si, mais inevitável é a queda. Desvia-se da verdade, desfia-se a corda, faz-se dia da noite desperdiçada. A cada nova manhã, algo se distancia e fica para trás.
Como uma Perséfone que transita entre os mundos sem que pertença a nenhum, não há o que esperar se o tempo traz apenas a transição, nunca a solução, de uma falsa liberdade a outra, sempre pendurada em culpa e expectativa tão, tão vazias. Resta apenas o vácuo e as partículas, tão finas e puras quanto lágrimas, de melancolia.
Tão sem esperança quanto nós que, mesmo borboletas, continuam atados.

Koshi

A tempestade, uma colossal nuvem de chuva, granizo e rajadas que uivavam nos ouvidos, eclipsava o céu como uma mancha de negrume denso e impenetrável. As ondas se erguiam em turbulência e sacudiam a embarcação com violência. Mesmo assim, a maior parte de seus tripulantes dormia um sono tranquilo com a certeza de um trabalho bem feito e a perda do justo temor às forças incomensuráveis da natureza diante das quais o homem era um simples e ínfimo grão de poeira.
Um dos que se mantinham acordados observava com reverência ao sombrio espetáculo que se desenovelava quase exclusivamente para ele. As mãos marcadas pelo tempo sequer se davam ao trabalho de lutar contra o poder titânico, limitando-se a pequenos ajustes no leme para que não fossem engolidos pelo mar.
Até que sentiu a base do pescoço ser tocada por um arrepio desagradável. Meneou a cabeça, franzindo as sobrancelhas grossas em uma linha, e fez o melhor que pôde para dispensar a sensação.
Instantes depois, como uma zombaria a sua fútil negação, viu a silhueta de algo que se movia na agitação marítima. Ou melhor, era como se o oceano se movesse ao seu redor, e não o contrário. Guinou com brusquidão para estibordo a fim de se afastar do que quer que fosse, sentindo uma pedra de gelo queimar suas entranhas por antecipação e temor, correu para fora sem se importar com as gotas pesadas e puxou o binóculo.
Girou o olhar para procurar pelo vulto entre as ondas e encontrou-o com facilidade no lugar de antes, incomodando-se com aquela sensação de imobilidade que lhe passava. Mesmo uma baleia seria carregada pela violência natural, mas aquilo, fosse o que fosse, se mantinha estático e inabalável.
Aproximou-se do arpão, mantendo o objetivo no centro da mira, e disparou. A lança sobrevoou a água antes de, com um choque úmido e audível mesmo diante da fúria estrondosa dos ventos, se fincar com perfeição no alvo.
Um guincho estridente atravessou a noite com a intensidade de uma onda de choque, afastando as nuvens e empurrando as águas. Aquele som hediondo e inumano forçou o homem a se colocar de joelhos e cobrir as orelhas, o que não pareceu ter qualquer efeito para impedir que se infiltrasse até seu cérebro como as garras gélidas de um espectro. Uma explosão luminosa cortou os céus enquanto a lua cheia no alto se rachava em um espetáculo de luzes e estourava, de súbito em pedaços, que caíram como milhares de meteoros e entraram na atmosfera como uma infinidade de estrelas cadentes, queimando o próprio tecido da realidade com seus rastros ígneos.
E esta foi a última coisa que viu antes de ser engolido pela escuridão.
Depois de um longo e exaustivo dia, os acontecimentos (ou talvez, o sonho) da noite anterior foram nublados e quase esquecidos pelas tarefas de praxe. As sensações se desvaneceram, as lembranças foram empurradas para longe e o horror deu lugar à corriqueira indiferença da rotina.
Contudo, o retorno do negrume agiu como um imã e atraiu de volta tudo que estivera em segundo plano. Flashes confusos, peças espalhadas de um quebra-cabeça que não queria montar, piscaram diante de seus olhos com fúria insone, mal lhe permitindo cerrar as pálpebras por um instante sequer e mantendo-lhe friamente imóvel na cama.
Seu desconforto era uma amálgama de sensações. O grito desumano ainda reverberava em seus ouvidos, um eco longínquo e assombrado, mas capaz de lhe arrepiar a pele apesar de tudo. Ali, tinha a desconfortável impressão de que, como insetos, milhares de minúsculas patas pinicavam e perfuravam seu corpo inteiro, intercaladas com mordidas dolorosas que provocavam súbitos tremores. Em sua boca, o gosto amargo e cadavérico de tumbas decrépitas se fazia tão insuportável quanto o crescente odor de peixe morto.
Rompeu a monotonia ociosa e se colocou de pé num salto, como se impelido por algo afora si. Deu-se ao trabalho de calçar apenas as sandálias antes de trovejar pela porta em direção ao litoral.
Sequer reparou na lua rubra e gigantesca que, furiosa, o observava do céu escuro.
Tropeçou e cambaleou rumo à praia com uma crescente urgência a pesar-lhe o peito até se render a uma corrida desajeitada. Venceu as ruas vazias e silenciosas até, enfim, alcançar as areias pálidas da costa.
Encalhado na beira-mar, um enorme vulto jazia. Deveria ter o tamanho de uma baleia, mas estava encolhido como um animal a dormir sob o relento e, além disso, não se parecia com qualquer tipo de rorqual que já tivesse visto. A carcaça tinha uma coloração cinzenta, algo mortiço e opaco, e, ao mesmo tempo, milhares de tons e gradações brilhantes, como luz fracionada. Seus traços pareciam incompletos, uma tela abandonada por seu pintor, e o que havia não encontrava nem mesmo a mais distante correspondência no vocabulário limitado. Um aspecto notável, porém, era que parecia estar se decompondo em ritmo acelerado diante de seus olhos, encolhendo e liberando tórridos miasmas de alguma podridão indizível.
Contudo, algo mais atraiu sua atenção. Ou melhor: a ausência de algo. Não ouvia o onipresente murmúrio das ondas porque o mar estava vítreo e imóvel como a superfície congelada de um lago, uma perfeita e uniforme calmaria até onde a vista alcançava.
Curioso, aproximou-se mais do achado e notou um arpão jogado ao lado da criatura, retorcido e manchado com as cores incompreensíveis de alguma substância viscosa. Um arrepio glacial percorreu sua coluna, do pescoço ao fim das costas, mas não recuou. Daquela distância, pôde observar também que vermes pálidos, diferentes de quaisquer que já vira, rastejavam e se banqueteavam.
Enfim, circundou o corpo e postou-se de costas para o mar. Ajoelhou-se diante da carniça retorcida enquanto lágrimas escorriam de seus olhos, distantes como uma longínqua e estridente gargalhada que rasgou a noite tensa e que, embora não tivesse reconhecido, fosse a sua própria.
O motivo era razoável o bastante para explicar o comportamento. E para explicar também sua ausência de reação quando as larvas pareceram notá-lo e decidir que preferiam uma presa viva.
A partir das carnes frouxas e malformadas, encolhidas em posição fetal, um tubo mole e sinuoso se projetava. Um cordão umbilical.

Bruma

As horas, os minutos, os segundos, todos insetos, com suas minúsculas patinhas de ponteiro de relógio, rastejavam sobre sua pele e a perfuravam em dolorosas agulhadas a cada novo e mínimo movimento. Havia algo de curioso nisso: o gosto suave do tempo como um simplório conceito humano, um mero número numa parede, um joguete de engrenagens que não significava nada diante de toda aquela grandeza esvaziada.
O corpo se jogava praticamente inerte e se afundava como um bloco de concreto na maciez fria demais daquele colchão muito grande para alguém tão sozinho com um arrepio que já era uma rachadura permanente em sua coluna e subia como as raízes de um carvalho por seus ossos porosos e enfraquecidos. Ao mesmo tempo em que se sentia tão pesado, havia uma magreza doentia nas costelas salientes, na barriga com suas ondas surreais e nas maçãs cavadas do rosto empalidecido.
Emoldurados por bolsas roxo-enegrecidas e inchadas como uma fruta podre sob o sol cancerígeno daquela cidade, os olhos se fixavam em um ponto nem um pouco especial daquele teto e seus maléficos sussurros. Toda aquela brancura o incomodava com sua ansiedade elétrica por uma cor, qualquer que fosse, para lhe dar razão. Nas mãos de dedos finos e tortos, quase deformados, nas unhas limpas demais, nas palmas sem calos, o fracasso se manifestava em fitas de risadas sem humor que se repetiam em um loop de dar calafrios com um corte abrupto que não encaixava o início e o final.
Pela janela estreita, cavalos corriam para cada vez mais longe ao longo de uma orla onde um cemitério se erguia das águas com sepulturas, mausoléus e obeliscos quase submersos. Os pedaços apagados e opacos de uma lua estilhaçada se mesclavam à necrópole com sombria perfeição sob a luz moribunda de um sol minúsculo que mal atravessava o ar enegrecido e denso. Da areia cinzenta da praia coberta por um lençol de bruma, erguiam-se as carcaças enferrujadas de chevrolets e cadillacs. No retrovisor torto de um deles, uma sapatilha de ponta se pendurava pela fita encardida.
A cama rangeu em protesto e quebrou o silêncio sepulcral enquanto os músculos esgarçados venciam a imobilidade. Como um dente-de-leão, letras de poeira e lágrimas se espalharam ao serem perturbadas pelo deslocamento de ar de um corpo que já não se aguentava mais. Sabiam-se incapazes de se estruturarem de novo, separadas para nunca mais voltar e lançadas rumo ao infinito e ao acaso.
Esquecimento. A palavra tinha gosto de cereja em seus lábios rachados e secos. Olhou para fora uma última vez, para as metáforas de autopiedade e para as pílulas de vácuo, incoerência e inconsistência que exalara. Uma única ideia, uma mandala de cores inexistentes. É que alguns navios afundam antes mesmo de zarpar.
Nos céus de vidro rachado, nenhum vislumbre de esperança à vista. Por que vagar?
“Amém”, pensou antes que seu peito se abrisse numa elipse rubra de onde o verbo aprisionado e sufocado há tanto escorreu enfim em essência, livre das limitações e das instabilidades. E sem nem ao menos pestanejar, o relógio continuou a andar.

Sobre olhos de caleidoscópio, de novo

Minha querida Mona Lisa,
Sei que prometi e
sei, melhor que ninguém,
como tentei. Mas
percebi que tentar te esquecer seria
um esforço inútil. Vãs,
as coisas todas,
e te deixar morrer
na memória
seria cruel, sempre
esteve acima das coisas desse mundo.

É só desespero
de dar sentido
ao que não tem
e de lutar
contra nossa cósmica,
infinita e dolorosa
insignificância.

Você poderia dizer que
entendi tudo errado, que
sou muito dramático, que
o tempo

algum dia vai curar…
E talvez,
só talvez,
esteja certa.
Mas não tenho tantos éons
à disposição,
ínfimo humano que sou.
Até o sol eterno
ainda chora as
memórias de sua
pálida lua.

Por vezes, seus lindos
olhos de caleidoscópio
brilham ao longe,
no horizonte do meu olhar perdido,
e teu gosto
de cereja
invade
a minha
bo
ca

então, entenda, que é muito,
muito
difícil te esquecer.

Mesmo em íris outras,
em lábios outros,
em cabelos menos bagunçados que os teus,
falta… algo.
Meu mundo é
monocromático
nessa monomania
de mastigar as
memórias duras e doces
daqueles dias.
Sem cor, olhos de
jade são só
distantes e simples demais.

Nada do que eu digo faz
sentido, mas,
em algum lugar, a gente sabe
que “it’s all about balloons”.

Desculpa, escrevi
sobre você de novo.

Sempre seu.

Mergulho

Com os pés apoiados sobre a beira da nave e as costas eretas, ele se preparou. Esticou os braços, ergueu-os acima da cabeça com os dedos entrelaçados e alongou-se com estalos úmidos dos ossos. Expirou o ar e fechou os olhos para se acalmar, contando lenta e pausadamente até dez.
Inspirou de maneira ampla, expandindo a caixa torácica e sentindo o sabor do vento em suas narinas, ao fim da contagem. Focando-se por completo nisso, soltou o gás carbônico e, com ele, os sons do mundo: abstraiu-se do rugido dos motores, do canto dos pássaros, das vozes altas e embriagadas, dos pequenos e esporádicos ruídos, de tudo que poderia despedaçar aquele estado de espírito.
Repetiu o processo, trazendo o mundo para dentro de si com sua violenta paleta multicolorida de cheiros; dos piores aos mais sublimes, dos familiares aos mais indesejados. E empurrou-os para longe de si com um movimento do diafragma.
Com um novo fôlego, acentuou os desconfortos. O peso das roupas ásperas sobre a pele, a dor incômoda na boca do estômago, o repuxar de zéfiro, a dureza gelada sob as solas descalças, as coceiras minúsculas, o movimento dos cabelos. Seu corpo se levantava contra o fluxo de muitos outros, matérias excludentes e concorrentes.
Uma expiração. Uma última inspiração e uniu os lábios, submerso em si mesmo e além do mundo sensível.
Lançou-se ao inexplorado. Atravessou a superfície e afundou no vazio, que, de imediato, se preencheu de luzes e cores indescritíveis. Os arredores pulsavam em vida e energia essencial que se transfigurava e se transmutava a cada segundo em supernovas de criação que eram engolidas por buracos de destruição que jorravam quasares da mais pura recriação. Macrofagócitos miméticos que cantavam sinfonias de pedras, notas e rimas preciosas e iluminavam os confins mais escuros com auroras de divindade extasiada. Círculos em torno de círculos que se entrelaçavam e circulavam-se a si mesmos, tecendo correntes de chuva na lama primordial.
O mergulhador de ego liquefeito se aprofundou ainda mais rumo ao desconhecido e seus mistérios. A sua frente, universos inteiros desabrochavam por entre fendas e imperfeições no asfalto seco. E isso era alimento para sua alma.

Bem-vindo à gaiola

Acho que mais cedo ou mais tarde todo mundo tem um daqueles dias em que acorda meio furioso, meio amargo, meio triste. A raiva fervilha no estômago, sobe pela garganta e quase escapa em um grito, mas é contida e se manifesta talvez como uma ardência embaçada nos olhos.
Quando o cobertor é afastado com o peso de uma placa de chumbo e, em conjunto, músculos e ossos se movem para erguer o corpo, os grilhões ao redor dos pulsos e dos tornozelos ficam evidentes (ou sempre estiveram?). A cabeça ainda nublada tenta ignorá-los, mas a consciência desesperada dá, por fim, vazão ao ódio matutino.
“Estar preso a rotina” parece, por vezes, uma frase clichê de um programa de saúde ou de um livro de autoajuda, mas a realidade de viver dia após dia da mesma forma é dolorosa e insuportável. Dói de verdade, como ansiedade na boca do estômago.
Em algum momento, a juventude se esvai e o mundo adulto te chama à porta: venha para a corrida de ratos, venha para mediocridade, venha para esta vida deserta, venha para o nosso mundinho escroto no qual sua única escolha será crédito ou débito. A imagem mental mais adequada é o Pennywise no bueiro oferecendo um balão. E quando você o aceita… ah, você flutua, todos nós flutuamos aqui embaixo, e passa a viver a agonia crua de ser adulto.
É um coming of age aterrorizante. Nada se encaixa, sabe? De repente, todos os seus planos são levados para longe (porque eles flutuam, hahahaha) e suas opções caem uma a uma diante do vendaval de merda chamado realidade. A faculdade? Não era como você pensava. O emprego? Não era adequado pra você (ele nem mesmo existe, veja só).
E uma após a outra, as utopias se tornam ruínas velhas de civilizações esquecidas; os sonhos se afogam nas lágrimas pungentes que entalaram no seu peito; a esperança morre. Bem-vindo à gaiola.
Come teu alpiste, bebe tua água, canta tua música chorosa e faça tudo de novo, passarinho. Você tenta forçar as barras, entortá-las ao menos um pouco… mas é fraco demais e fracassa. Teu céu é gradeado e tuas asas atrofiaram. Dói, não é? Ser só mais um encarcerado a agonizar com uma dor profunda e inalcançável.
Às vezes, parece que não foi feito para o mundo, que não foi feito para as tardes abafadas e barulhentas dessa cidade, que não foi feito para existir. E isso dói porque seus pores do sol e suas luas cheias de verão estão além daquelas grades. As barras de ferro são o mundo… ou são você?
Eu sei; dói pra caralho.

Suspiros Azuis

Os pés balançavam suspensos sobre as águas escuras e serenas enquanto o restante do corpo se sentava na beirada de um píer iluminado apenas pela luz pálida e vazia de uma lua minguante, minguada, insossa. O espelho d’água refletia um mundo trêmulo e escuro, um inverso do que já era reverso, de formas instáveis e mutantes como um significado qualquer que se perdera entre o primeiro e o último instante.
As mãos prateadas se ergueram em direção ao céu sem estrelas de fumos melancólicos e sereno de inverno, do tipo que beija cabelos molhados, com as palmas abertas, como se esperassem que o astro sem brilho se entregasse. Baixaram-se de novo, frustradas, e repousaram sobre a madeira carcomida do porto. A insistente destra, porém, se ergueu de novo e encostou o indicador e o médio contra a têmpora, mantendo o polegar erguido em vã e desconjuntada ameaça.
Numa última súplica desesperançada, olhos argênteos fitaram a forma sem graça com cintilações de diamantes de sal. Mas tetos – sejam de quartos frios ou de vidas sem sentido – são sempre indiferentes.

Eu surfava vias de congestionamento quando primeiro a vi.  Anja de tez dourada com as asas recolhidas para na multidão não esbarrar. Havia nuvens claras de pó de safira e jade ao seu redor, mas limitado não pude distinguir se vestes ou divindade. Seus olhos de caleidoscópio se encontraram com os meus de enigmas vazios e esfinges cadavéricas – breve supernova – e seguiram sem demora.
Alvoroçado, continuei meu sistemático isolamento na medida do possível: insistia em olhar de esguelha para tua forma de luz e de rimas ricas. Mesmo ao fim dos movimentos, segui-te com a mente.
Semideusa de aparições milagrosas, encontrei-te de novo em praias presas entre quatro paredes de tempo desperdiçado e filmes que já vimos. Em teus passos de ballet, teu sorriso de raio de sol num dia nublado aqueceu o gelo de um cubo num martini etéreo e astral de abstinência que se desfaz em euforia. Teus lábios distantes, pétalas de rosa que se abrem em afirmações de melodia finíssima.
Persisti e resisti ainda assim, como um teimoso que enfrenta uma tempestade de verão e espera que os raios caiam longe. Contudo, represa cheia estoura em rachaduras tecidas pela própria insistência.
Por isso, como fonte, jorrei sobre ti as cores mais bonitas como humildes oferendas:
sequer chegavam a teus pés. Você pegou uma, sentiu o perfume e abriu-se em um riso de mel.
Contemplei por éons suas feições esculpidas em harmonia e diligência, estupefeito que seus olhos multicoloridos olhassem de volta. Por ti, cultivei flores sob água pura e entreguei cada uma em buquês de esforço indizível e tão próximos da perfeição quanto a imperfeição poderia chegar.
Aos poucos, desci da minha montanha em seu colo com o rosto em seus cabelos e o peito inflamado. Toquei tuas asas suaves, enrolei teus cabelos de caótica ordem e acariciei tua pele aveludada com devota reverência tal qual um profeta diante do deus que proclama. Por alguns instantes – eternos enquanto duraram, fui feliz. Uma concha se partiu e talvez houvesse mesmo uma pérola.
Mostrei a beleza e também o oceano azul marinho dentro de mim, da superfície até as mais abissais profundezas. E acreditei mesmo que, se te dissesse, você ficaria.
Contudo, quando abri os olhos, estava diante do espelho da escuridão e vazio de cada dia, olhando para meu próprio reflexo, nu e isolado em meio à multidão sem rosto. Uma sinfonia de espaços entre notas.
Vozes em minha cabeça para amenizar a solidão. Ideias apaixonantes.
Fracassado e por mim enganado, segui até o lugar mais alto e mais solitário onde poderia inverter o céu e a terra. Olhei para baixo, para a queda infinita de anjos sem asas, cerejas de esquecimento e vazios reconfortantes, porque os fumos de melancolia eram bem-vindos e inebriantes.
E rumo ao infinito.

O polegar desce, o indicador e o médio recuam enquanto a cabeça vai para o lado oposto, porém de olhos tranquilos. O corpo desaba do píer e é recebido pelas águas escuras, que o abraçam.

Despenco no oceano dentro de mim, em sua gélida e compreensível ausência, porque o segredo em cada pausa é que estou sempre sozinho. Nada mais condizente, não? Sem cor, morro afogado em azul-marinho.